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Pelo Futebol

por 1 de Fevereiro de 2016À saída do estádio0 Comentários

Já o vira colado àquela janela durante várias horas, noutros tantos dias. Com a cabeça apoiada nas duas mãos e as pernas “à chinês”, fica a contemplar o campo de areia atrás da escola, onde as crianças copiam os seus ídolos, os postes são feitos de mochilas coloridas e a bola é o único objecto necessário para existirem sorrisos. O seu cabelo preto, minuciosamente alinhado e um pouco acima das sobrancelhas, encosta-se ao vidro, e o brilho que lhe acompanha o olhar é estonteante. Porém, quando o vejo colado àquela janela, carrega um semblante triste e os únicos pontos de luz vêm dos seus enormes olhos cor de amêndoa. Aquele menino sempre me apaixonou e, ao mesmo tempo, intrigou. Costumo olhar para ele da mesma forma como ele olha para o campo de areia atrás da escola, mas nunca lhe dirigi uma única palavra. Sinto que aquele é um momento demasiado íntimo e profundo para ser desestabilizado e foi criado, pelo próprio, para podermos imaginar as nossas histórias, cultivar as nossas paixões e mantermos fértil a nossa imaginação. Tenho a certeza de que todos aqueles que já pararam para o observar de perto têm as suas teorias e elas vão-se espalhando e enchendo os corredores de magia e mistério. Há quem não lhe dê importância e não compreenda o alarido que se gera à sua volta, mas acabam por referi-lo em alguma conversa de café. Há quem viva obcecado com a sua existência e tente incomodá-lo em busca de respostas, mas ele nunca cede a chantagens.

Nos últimos dias, o menino tem passado mais horas do que é habitual junto à janela e o seu silêncio alimenta gritarias em todas as salas. Não há consenso quanto à sua postura e todos querem defender e vender opiniões. Infelizmente, há quem as compre e continue a alimentar guerras por causa de um menino que gosta de admirar o campo de areia atrás da escola. Nos últimos dias, tenho pensado em aproximar-me dele, mas não quero reforçar ainda mais a tempestade que o copo de água já não consegue segurar. Ainda assim, a minha paixão pelo menino é demasiado forte e a admiração já dura há largos anos, o que significa que não tenho capacidade para continuar a assistir à sua agitação pouco comum sem me aproximar, sem agir. A noite passada tracei um caminho e, neste momento, estou prestes a dar os primeiros passos, mesmo que as minhas pernas estejam a tremer tanto como se estivesse naquele campo de areia, prestes a marcar a grande penalidade que poderia dar um título à minha equipa.

Caminho delicadamente e sem pestanejar na direcção do menino. Os meus movimentos são tão suaves que mal oiço os ténis a entrar em contacto com o chão. Antes de aparecer na sua visão periférica, sento-me lentamente e cruzo as pernas “à chinês”, para que depois os meus braços me ajudem a ficarmos à mesma distância da janela e lado a lado. Só se ouve o bater descontrolado do meu coração e os gritos dos meninos que ocupam o campo de areia, em mais uma típica discussão acerca do tamanho de cada uma das balizas.

- Estou com medo. – Foi a primeira vez que ouvi a sua voz e é tão pura como eu a imaginara. – Não largo esta janela porque estou com medo. – Reforçou, mexendo somente os lábios.

- Com medo de quê? – A minha fala saiu a tropeçar na ansiedade que me envolvia o corpo.

- E, se um dia, eles já não voltam? – Esticou o indicador na direcção dos meninos do campo de areia. – E, se um dia, eles se fartam da bola e compreendem todos os truques antes de crescerem? – Fiquei confusa, sem capacidade para enquadrar aquele comentário.

- Como é que te chamas? - Questionei.

- Isso importa? Responde-me tu: E, se um dia, eles já não voltam? Se perceberem que os ídolos de hoje são os traidores de amanhã, se compreenderem que é o dinheiro que faz rolar aquilo que eles tanto gostam de ter nos pés, se deixarem de gritar “golo” com o entusiamo de quem não sabe que nem sempre é “golo” quando a bola entra dentro da baliza? Eu preciso deles para ser feliz e tenho medo… - As suas palavras atingiam-me o coração. – Sabes que eles são o início de tudo isto? A força como atiram as mochilas para a areia para correrem para a bola, a intensidade com que defendem as equipas de que gostam, o esforço que colocam nas fintas aos colegas, a crença de que é sempre possível dar a volta porque nunca há dúvidas de que “quem marcar ganha”. São eles. E ninguém me ajuda para que eles não desapareçam. Ninguém me torna mais sério e limpo, ninguém quer que as minhas regras sobressaiam e ofusquem aqueles que não gostam de mim, aqueles que não entendem a minha essência. Porquê? Todos querem que eu responda a perguntas mesquinhas, mas ninguém se preocupa comigo. Um dia, se eles desaparecerem, eu desaparecerei com eles e nunca mais me verás nesta janela.

- Como é que te chamas? – “Golooooo” ouvia-se lá fora, no sítio onde tudo começa. Depois de terminados os festejos, o menino respondeu-me.
- Futebol.

Rugido de uma Leoa