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As serenatas fazem-se à chuva

por 7 de Janeiro de 2016À saída do estádio0 Comentários

Nós estávamos à janela com o cachecol verde e branco. Olhávamos para o céu na esperança de que a chuva não dificultasse mais uma tarefa da nossa equipa mas, ultimamente, quando olhamos para o céu, torna-se difícil não nos perdemos em desejos e sonhos de uma vida. Torna-se difícil conter o êxtase enquanto estamos à janela a assistir à declaração de amor que os nossos jogadores nos fizeram ontem.

Somos nós. Somos nós que por tantas e tantas vezes nos declaramos. Somos nós que os empurramos, que os defendemos, que os admiramos. Somos nós que andamos uma semana inteira a pensar neles. Ontem foi o dia em que os jogadores nos quiseram demonstrar que também estão obcecados por nós e nos brindaram com um futebol magistral. Ontem foram eles que se declararam, foram eles que cantaram o futebol com notas de classe e foram eles que nos fizeram esquecer a chuva. Daquela janela, assistimos a uma serenata em campo, quatro dias depois de, em Alvalade, eles terem assistido a uma serenata nas bancadas. Esta é a partilha que tem feito a diferença, que nos tem tornado temíveis e a que eu identificava nas histórias mais antigas sobre o Sporting Clube de Portugal, contadas por vozes roucas de experiência entre lágrimas e sorrisos. O que eu sinto é que a união que este clube proporcionava entre jogadores e adeptos, a nossa maior arma, está a ser reconquistada.

O Adrien parece um autêntico miúdo. Foram seis as vezes em que vimos a bola a beijar as redes da baliza do Vitória de Setúbal, mas ele gritou, ele saltou e correu efusivamente em todas as ocasiões. É um prazer gigantesco observar o nosso capitão, tanto pela forma sublime como trata a bola e pensa o jogo, como pela alma que impõe em todos os duelos que disputa. William Carvalho, depois de finalmente ter mostrado que continua a saber comandar o nosso meio-campo, teve o privilégio de olhar para os olhos de uma criança que, no final do jogo, invadiu o relvado para lhe pedir a camisola. Costumam dizer que as crianças transportam muitos sonhos no olhar e eu só quero que o William não se esqueça de que aquele menino lhe fez chegar o desejo que nos distrai a todos quando estamos na janela a olhar para o céu. Mais uma vez, o João Mário resolveu abrir o livro e revelar que, apesar da tenra idade, já é um senhor do desporto rei. Protege a bola nos momentos certos, transporta-a com velocidade por entre as defesas adversárias, assiste os colegas com toques subtis carregados de magia e, ontem, ainda teve tempo para assinar uma grande exibição com um golo sensacional de fora da área. Deliciem-se enquanto podem, porque eu não tenho dúvidas de que estamos perante um craque. O nosso meio-campo foi o ponto alto da serenata, mas é impossível ignorar o colectivo: um Slimani insaciável, Bryan Ruiz a jogar de fato e gravata entre os pingos da chuva, Bruno César com uma motivação fantástica, dois laterais a subirem de forma a uma velocidade impressionante, Naldo e Paulo Oliveira a imporem-se como duas torres de segurança/controlo e, apesar de ontem ter estado pouco interventivo, Rui Patrício é a última muralha que completa a segunda defesa menos batida da Europa. Tudo isto com seis meses de rotinas criadas pelo nosso maestro, Jorge Jesus.

Obrigada, equipa. Está na hora de fechar a janela e prepararmo-nos para o embate de Domingo, até porque o cachecol tem de secar. Obrigada, equipa. Obrigada por nos terem ensinado que não precisamos de ter medo das nuvens porque as serenatas fazem-se à chuva.

Rugido de uma Leoa