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O poder do Cérebro

por 14 de Dezembro de 2015À saída do estádio, Os textos do Damas0 Comentários

Costuma dizer-se: “O cérebro é que manda…”. No futebol, existem muitos momentos em que esta frase pode ser aplicada. Aqueles que acreditam que a psicologia está fora-de-jogo nesta modalidade já devem ter levado algumas chapadas de luva branca.

O Sporting Clube de Portugal veio de um período drástico da sua história e não tenho qualquer tipo de problema em assumi-lo. Nas anteriores direcções existiram vários cérebros, utilizados com o objectivo de sugar todos os benefícios económicos do clube, desenvolver vários esquemas pautados pela corrupção e desprestigiar mais de cem anos de história, de glória e de amor. Nós lutávamos com o coração, porque o cérebro ficara perdido há muito tempo atrás, quando tivemos de aceitar o término do campeonato no sétimo lugar da tabela classificativa. Nestas alturas, em que faço uma retrospectiva de capítulos que nunca deveriam ter sido gravados na nossa cronologia, chego à conclusão de que a falta de racionalidade foi aquilo que nos salvou. Só a falta de racionalidade nos permite sermos capazes de amar coisas que não nos fazem bem. Eu chorei, mas nunca fui capaz de retirar o cachecol da minha cómoda e, por vezes, dormia com a camisola verde e branca ao meu lado, na esperança de que o novo dia nos voltasse a colocar no patamar de onde nunca deveríamos ter saído. O Sporting Clube de Portugal perdeu a identidade, o respeito dos adversários. Era na lama que brincavam com o nosso nome e estávamos condenados ao pior dos cenários…

Já escrevi sobre a pessoa que, na minha opinião, nos salvou. E hoje venho escrever sobre o homem que nos devolveu o cérebro. Costumam falar de Jorge Jesus como um mestre da táctica e não discordo, visto que é um treinador que está há quase 20 anos no primeiro escalão do futebol português. Contudo, penso que no Sporting Clube de Portugal ele tem demonstrado o seu ponto mais poderoso: o fortalecimento mental dos jogadores com quem trabalha. Tal só é possível devido aos métodos pragmáticos com que Jorge Jesus encara o futebol:

– Os atletas têm de se mostrar comprometidos com as missões planeadas. Jorge Jesus é obcecado pelas vitórias e completamente apaixonado por aquilo que faz, por isso não aceita falta de atitude. Este paradigma deixa bem claro que os jogadores nunca poderão contar com “lugares garantidos” e têm de jogar sempre nos limites. Não é “conversa fiada”. Eu não acredito que Jorge Jesus tenha deixado William Carvalho no banco, contra o Moreirense, só a pensar nas “poupanças”. Por esse ponto de vista, Adrien, que tem sido um jogador muito mais sacrificado no meio-campo leonino, não teria assumido a titularidade. O capitão da equipa do Sporting tem vindo a apresentar um momento de forma brilhante, enquanto William Carvalho ainda se encontra longe do fulgor de outras épocas. No meio desta equação, entrou Aquilani, super motivado, tendo consciência da oportunidade oferecida pelo mister. O italiano correspondeu e até foi considerado o melhor em campo, criando outro “problema” a Jesus. O cérebro é que manda.

– Os jogadores passam a sentir que haverá um total aproveitamento das suas maiores qualidades e uma evolução ao nível dos aspectos mais frágeis. Quando existe valor, Jorge Jesus espreme-o até à última gota. Matić e Enzo Pérez são jogadores que, decerto, terão saudades do técnico português, pois foi com ele que atingiram o melhor momento de forma nas suas carreiras. No Sporting, é impossível não olhar para os exemplos de Slimani, João Mário e, novamente, Adrien, que estão a atingir níveis exibicionais muito acima de quaisquer outros alcançados no passado. O cérebro é que manda.

Quando estas duas rodas funcionam bem e ao ritmo de vitórias, Jorge Jesus apresenta uma estrutura fortíssima e é capaz de defender os seus pupilos dos vários tipos de ataques vindos do exterior. E aqueles que não gostam de ver bicicletas bem oleadas falavam na incapacidade de Jesus em apostar na formação e no choque de personalidades entre treinador e presidente do Sporting Clube de Portugal. Seriam esses os dois abismos terríveis que prejudicariam gravemente o clube, mas ambos se têm vindo a revelar uma grande anedota criada pelos papagaios do costume. Infelizmente, Gelson Martins e Matheus Pereira só têm encontrado o destaque merecido na imprensa estrangeira, mas isso não faz com que a aposta nos jovens extremos deixe de existir. Ricardo Esgaio, que ainda tem muita margem de progressão, cumpriu bem o seu papel no jogo de ontem e provou que pode ser aposta. O último cartucho dos mercenários também foi gasto em vão, visto que Bruno de Carvalho e Jorge Jesus têm demonstrado uma união e uma sintonia incríveis. Mas não desanimem! Como disse no início do texto, o cérebro é que manda e, se continuarem a acreditar com muita força nessas vossas ideias, pode ser que consigam viver essa ilusão.
Quando o nome de Jorge Jesus foi anunciado, eu não tive dúvidas de que iríamos poder contar com uma equipa altamente competitiva e com uma feroz sede de vencer. O dedo do técnico está presente em todos os minutos dos jogos, mas é bom relembrar que estes treinos têm poucos meses de rodagem – é surreal observar as rotinas que se adquiriram em tão pouco tempo – e ainda só ganhámos um troféu. Na quarta-feira, defenderemos uma taça que nos pertence e, se confiarem no vosso cérebro, só têm de ouvir o nosso coração.

Rugido de uma Leoa