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A Bola Que Já Estava Nas Mãos Do Guarda-Redes

por 12 de Dezembro de 2015À saída do estádio, O Sporting lá fora0 Comentários

– Filha, qual é que foi o melhor golo?

– O do Teo, pai. Que classe…

– O do Teo?

– Sim, foi o golo mais bonito.

– O do Slimani. Só o Slimani é que pode marcar golos daqueles…

– Sim, tens razão.

– Aquela bola já estava nas mãos do guarda-redes. Ele é que acreditou!

– Tens razão, pai.

Saí do estádio sem o meu cachecol verde e branco. Nunca me senti tão desamparada durante um jogo de futebol. É no cachecol que eu descarrego as minhas emoções. Tapo os olhos quando falhamos o golo por milímetros. Mando-o contra a cadeira quando o árbitro não marca falta. Agarro-o com muita força quando nos está a faltar aquela pontinha de sorte. Levanto-o bem alto quando os cânticos assim o exigem. Mas foi à última da hora e não tive outra hipótese. Saí do estádio sem o meu cachecol verde e branco, mas tinha o calor reconfortante de uma reviravolta a aquecer-me o corpo. Uma reviravolta é diferente. É o futebol na sua máxima força. Para mim, uma reviravolta é a conversa bonita que o futebol tem com os adeptos para que eles se apaixonem. Quando estamos a perder, é o futebol a dar-nos luta. Não gosta daqueles que não lhe dão valor e viram as costas à primeira dificuldade. Depois vem o empate, capaz de nos fazer sonhar e de testar o nosso nível de ansiedade. O futebol sabe que temos de ser emocionalmente fortes. Quando a reviravolta se concretiza, é o futebol a deixar-nos loucos, a apoderar-se dos nossos sentimentos de uma forma arrebatadora. Sem notarmos, ficamos apaixonados. O amor por um clube ganha-se noutras ocasiões, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa.

Foi um jogo muito duro. “Duro” porque vimos um Sporting sem ideias na primeira parte, a expor-se com facilidade aos ataques rápidos dos turcos. O nervosismo dos jogadores era quase palpável, em Alvalade. Algo que só a Curva Sul conseguia dissipar: crentes do início ao fim, dispostos a que as claques visitantes entendessem que também somos exímios no apoio à equipa. Eles sentiram. Depois da cavalgada do Slimani, não se voltaram a manifestar. Pois é, Sli. Eu bem tento desviar-me deste carinho tão especial que tenho ganho por ti, mas és tu que me procuras. Que nos procuras! Até já tens direito a ouvir o teu nome em uníssono quando és substituído… Estamos rendidos, abismados com essa vontade de vencer. Na segunda parte, o golo do Besiktas foi o murro no estômago capaz de deitar os jogadores do Sporting ao chão. Mas a maior diferença desta equipa do Sporting Clube de Portugal para todas aquelas que já tive oportunidade de ver jogar – e não se esqueçam, os mais críticos, de que tenho apenas 22 anos -, é que esta equipa não é composta por jogadores, mas por guerreiros. Não têm praticado um futebol bonito, cativante, mas nunca os vejo de olhos no relvado, cabisbaixos ou com postura de derrotados. Os papagaios, aqueles que tentam escrever novas regras para o futebol, dizem que não merecemos estar em primeiro lugar, que não merecemos passar a fase de grupos da Liga Europa. Se calhar, somos tão maus que deveríamos fechar portas. Se pudessem, inventariam um novo regulamento, onde fosse declarado que já não podem existir vitórias pela margem mínima, que é proibido um jogador da equipa adversária cometer uma grande penalidade no tempo de compensação e que a sorte tem de ser banida da modalidade. Existe qualquer coisa que vos move, mas não é, de certo, o futebol. Voltando àquilo de que eu gosto: o Gelson foi o grande agitador do jogo, na minha opinião. Trouxe velocidade, uma maior pressão na primeira fase de construção do Besiktas e muito querer na disputa dos lances. Bryan Ruiz, quando joga atrás do avançado, faz magia. Assistência de grande qualidade técnica no primeiro golo e um remate fulminante no segundo. É incrível como até Tolga Zengin – guarda-redes do Besiktas – fica rendido à classe do costa-riquenho e sem reacção em ambos os lances. Para aliviar e superar todo o receio vivido na partida, chegou Teo Gutiérrez, com um golo à ponta-de-lança e com boa nota artística. Por esta altura, já não sabia onde é que as claques turcas estavam situadas, pois só se ouvia Sporting, só se respirava Sporting e só se sentia Sporting.

Saí do estádio sem o meu cachecol verde e branco, mas tinha o calor reconfortante de todos os sorrisos que me enchiam o olhar. Olhei à minha volta e pensei: nós merecemos tanto ser felizes… Por todo o amor que dedicamos, por tudo aquilo que já sofremos, por sermos fiéis. Saí do estádio sem o meu cachecol verde e branco, mas tinha o calor reconfortante de um abraço vindo de um senhor já velhote, depois do segundo golo. O meu avô foi um dos pioneiros deste meu amor, mas nunca tive oportunidade de abraçá-lo depois de uma vitória do Sporting Clube de Portugal. Naquele momento, senti que aquele tinha sido o nosso abraço. Saí do estádio sem o meu cachecol verde e branco, mas tinha o calor reconfortante da certeza de que somos o único de Portugal.

Rugido de uma Leoa