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A Lei Do Mais Forte

por 9 de Novembro de 2015À saída do estádio0 Comentários

Depois da sofrida vitória de ontem e de um dos melhores momentos da época até agora, não tive dúvidas quanto à escolha da camisola que me iria acompanhar durante todo o dia. Com um sorriso rasgado e a verde e branca no corpo, entrei no café onde, diariamente, disfruto do meu pequeno-almoço. Estranhamente, o cenário desta manhã apresentou-se bastante diferente daquele que costumo encontrar. Um barulho ensurdecedor, veias bem salientes nas gargantas, alguns copos pelo ar e dois grupos claramente distintos a debater como loucos. O Sr. Inácio, empregado e dono do pequeno estabelecimento, parecia apático. Ele não deu conta da minha chegada e encontrava-se atrás do balcão a assistir a todo aquele tumulto com os óculos a caírem-lhe pelo nariz. Caminhei calmamente na sua direcção, coloquei-lhe a mão no ombro e falei-lhe ao ouvido:

– O que é que se está a passar?

Não se assustou com a minha presença. Parecia já estar à espera daquela pergunta há vários minutos. Mas continuou perplexo, sem desviar os olhos da algazarra.

– Ouve com atenção aqueles que dizem que sabem falar de futebol. Em toda a minha vida, nunca vi nada disto…

Desviei o olhar para o cenário de combate e abstraí-me do resto do mundo.

– Mas sou eu. Apenas eu. Sou eu que dou requinte às jogadas e abrilhanto o futebol. Sem mim, esse desporto não existe… – disse um homem magro, num tom de voz calma, com um chapéu azul-escuro a fazer lembrar aqueles que os mágicos utilizam nos seus espectáculos. As mais de vinte pessoas que permaneciam na sua retaguarda fizeram um ruído de concordância depois das suas palavras. Todas elas se vestiam com roupas bastante luxuosas, tinham um ar ilustre.

-Digo mais: sem mim, o futebol não passa de uma batalha campal, sem nível.

– Estás enganado! Não consegues aparecer durante os noventa minutos. Há jogos em que é preciso comer a relva e suar bastante as camisolas para conquistares a vitória! Quando o adversário é forte defensivamente, não te dá espaço para construíres jogadas bonitinhas e a bola tem de entrar na baliza, rapaz! – No outro lado da mesa, aparecia um senhor com barba cerrada, que vestia uma t-shirt branca carregada de sujidade e um fato de macaco semiaberto. Não tinha tantos apoiantes, mas eram bastante mais fervorosos nas palavras que gritavam e nas palmas que batiam.

- Estive presente em muitos dos remates de Andrea Pirlo, nas jogadas do Barcelona comandado por Pep Guardiola, naquela assistência do Berbatov para o Cristiano Ronaldo… Acha que o futebol precisa de si para alguma coisa? – Revirava os olhos, como se tivesse dado o xeque-mate.

- E lembras-te quando o Liverpool perdia por 3-0, ao intervalo, na final da Liga dos Campões de 2005? Que classe da equipa do Milan! Resolver um jogo daqueles na primeira parte não está ao alcance de todos, não achas? E a “classe” que aquelas equipas “pequenas” têm quando vencem os colossos do futebol mundial? E aqueles lances que se ganham na raça, quando um avançado perde a bola e vai até à sua grande área para a recuperar? Quando o central corta a bola em cima da linha de golo depois de um esforço enorme, a culpa também é tua? David Luiz, dois mil e treze, final da Taça das Confederações contra a Espanha. És mesmo só tu…? – Pela primeira vez, aquele local foi invadido por um silêncio assombroso que me congelou o sangue.

- Esses lances são raros! Há muita sorte nessas reviravoltas! Não tem argumentos para mim!– O chapéu azul-escuro saltou-lhe da cabeça e caiu no chão depois do homem dar um enorme murro na mesa.

- E isso é o quê? O senhor a demonstrar toda a sua classe ou a tentar uma vitória na raça?

Olhei para o Sr. Inácio. Pela primeira vez, notei-lhe um sorriso nos lábios que acabou por contagiar os meus. Os intervenientes foram abandonando o café sem que se ouvisse um único murmúrio. O Sr. Inácio colocou a mão no meu ombro e falou-me ao ouvido:

- Ficámos com os mesmos três pontos depois desta conversa, não ficámos? Os cães ladram e o Sporting Clube de Portugal vai passando…

 

Rugido De Uma Leoa