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Eu, o Avô e o miúdo.

por 3 de Junho de 2015À saída do estádio, Os textos do Damas0 Comentários

“Onde vais?” – Perguntam-me eles.

“Vou-me embora!” –  respondo eu.

E fui. Sai do meu lugar, desci as escadas e encostei-me ao gradeamento. Se me passou pela cabeça abandonar o estádio? Não o vou negar. Não o fiz, aliás, apenas o fiz uma única vez, depois de estar a perder por quatro, frente ao Bayern Munique. Mas dizia-vos eu que não o fiz, porque pelo caminho encontrei alguém que, em tempos, fui eu. Com menos 20 anos.

"Avô, vamos ficar! Eles ainda podem marcar!". Um miúdo, que não tinha mais de 10 anos de idade, insistia que isto ainda não tinha acabado. O Avô, no embalo da tristeza e já com uma certa idade para acreditar em milagres, acatou, a muito custo, o pedido do seu neto. E eu confesso que me deixei levar por esta capacidade de sonhar, de acreditar que, como na maioria dos filmes, ou dos desenhos animados, o bem acaba por prevalecer sobre o mal.

Estava sem voz, sentia-me moído. O que se passava dentro das quatro linhas era demasiado mau para ser verdade. Fiquei a pensar se esta derrota teria justificação, ao mesmo tempo que tentava encontrar uma razão, por mais descabida que fosse, para reconfortar o meu pensamento. As feridas da última vez, no estádio nacional, estavam a abrir-se e, à minha frente, apenas conseguia visualizar o cenário de mais uma tragédia.

Mas, enquanto os jogadores iam dando sentido real ao que se cantava na bancada: "Nós somos da raça que nunca se vergará!",  eu estava a observar o banco do Sporting e o desalento evidente de alguns jogadores, quando, de repente, e qual faixa de gaza, Slimani provoca o primeiro estoiro na bancada. Solto um "Vamos, caralho, vamos!", um pouco contido. O Avô não festeja. O miúdo grita que nem um desalmado.

O árbitro dá 6 minutos. "Ainda temos tempo", tal como eu, foi aquilo que milhares de Sportinguistas terão pensado. A bola está na defesa. Está tudo muito fechado, uma tremedeira e uma sofreguidão altamente justificáveis numa altura daquelas, Paulo oliveira decide jogar longo, e enquanto eu digo: "Não faaaaa"... pois é, todos sabemos o que aconteceu a seguir. Dou por mim agarrado a um miúdo que me abraçava como se fosse um pai ou o próprio avô, dou por mim a abraçar um avô como se fosse o meu, tudo porque, no meio desta loucura desenfreada, há um sentimento forte e abrasador que nos une enquanto adeptos deste maravilhoso Clube.

"Eu disse-te Avô!", dizia o miúdo. O "Avô", tal como eu, não conseguiu disfarçar a emoção, enquanto enrolava o miúdo nos seus braços - Eu, aposto a minha vida, como aquele será um abraço que nunca mais vão esquecer.
Era tempo das grandes penalidades. Depois de um momento tão cúmplice e indescritível, convidei-os a subir uns degraus para podermos ver o derradeiro momento. O Avô, visivelmente agastado pelo impacto das emoções (sim porque isto de ir do inferno ao céu em 10 minutos não é fácil de suportar) baixa a cabeça e respira fundo e eu digo ao miúdo: "Podes ficar descansado, já ganhámos!". Depois de uma remontada no limite do impossível, os deuses do futebol só podiam estar a puxar pelo Sporting. Ele sorri. Acredita nas minhas palavras e, na segunda bola, percebe que agora era altura de acreditar em mim. Apercebo-me que a vitória está mesmo à porta e procuro aqueles que me acompanham neste aventura de fazer isto um estilo de vida.

O Salvador Agra parte para a bola, atira... e saí ao lado... Rebenta a festa no Jamor! Abracei-me ao meus, caíram-me muitas lágrimas, cantei mesmo sem voz. Abracei mais de 50 pessoas, voltei a dar um abraço ao miúdo e ao avô que festejavam no meio de muita emoção. Percebo que finalmente celebramos aquilo que buscamos, ano após ano, incessantemente. Apercebo-me que este celebrar não era só pela Taça. Era também por nós, por tudo o que fazemos e lutamos enquanto sócios e adeptos. Por todos os outros anos em que ficávamos a ver os outros ganharem.

A partir do minuto 72, até o jogo acabar, foram os momentos que eu há tanto tempo procurava. Os 240 Km para ver o Sporting, mais alguns jogos fora, as quotas, a gamebox, e todos os esforços são impagáveis. Esta foi a vitória do crer, da raça e do coração. Sem dúvida que sim.

Mas de todos aqueles que mereciam esta Taça, esta conquista, este reavivar de alma leonina era este miúdo, eu, tu, o Avô, o teu pai, o teu irmão e todos aqueles que durante uma vida levaram e levam o símbolo do rampante gravado no coração. Nós acreditámos, nos lutámos e nós merecemos isto. Afinal de contas, nós somos o maior e mais importante património do Sporting Clube de Portugal.

Acabo este texto com uma frase em que acredito palavra por palavra: "O Sporting é nosso outra vez!"