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Despertar

por 31 de Maio de 2015Os textos do Damas0 Comentários

Acordei, repentinamente, quando faltavam quinze minutos para o despertador tocar. Um quarto para as oito, marcavam os números luminosos. Da rua, nenhum ruído suficientemente forte para ter perturbado o meu sono. Levei as mãos aos olhos, para de seguida esfregá-los. A minha cabeça estranhou aquele madrugar. Tive a sensação de que alguém me tinha acordado, para se esconder imediatamente. O meu olhar divagou pelo quarto, em busca de provas que fossem capazes de comprovar a minha teoria. O guarda-vestidos. A camisa, pendurada na porta. A televisão desligada. O cachecol verde e branco. Os cortinados alinhados. Calma. O cachecol verde e branco. Não me lembro de o ter deixado em cima da cómoda. A peça que me faltava. Foste tu…?

A nossa relação não cresceu da forma mais harmoniosa. Infelizmente, quando nasci, já mal conseguias falar. Decifrava os teus sons e gestos, ainda pequenina, sentada no sofá da avó. Ocupavas sempre o lado esquerdo do sofá e eu observava-te durante várias horas, enquanto desfrutavas de mais uma corrida de ciclismo. Ali ficavas, colorindo o coração com as cores das camisolas que passavam, velozmente, no ecrã da televisão. De vez em quando, olhavas-me, tranquilo, e dizias: gosto muito de ti (sem soltares uma única palavra). Eu sorria e tu enchias-te de lágrimas. Mas eras forte e não deixavas nenhuma cair. Eu sei… É a primeira vez que te escrevo. Nunca tinha tido coragem. Não sou tão forte como tu eras.

Jamais me irei esquecer: Quiseste demonstrar-me que o teu coração só tinha uma cor. Cheguei à tua casa e não estavas a ver ciclismo. Lembro-me de sentir uma agitação nada habitual no teu corpo, nos teus movimentos. Era futebol. Era o Sporting. Mesmo depois de dares pela minha presença, não desviaste o olhar do jogo. Ao invés, levantaste o braço direito e convidaste-me a sentar ao teu lado, transmitindo-me um enorme entusiamo. Eu anuí e, a partir desse momento, entendi de onde nascia o brilho dos teus olhos azuis. Percebi por que é que falavam tanto da tua paixão pelo Sporting. Nesse dia, as tuas limitações não te impediram de gritar “GOLO!”.

Foste tu que me deste o primeiro cachecol. Bem pequenino, com alguns botões, para enrolar à volta do pulso. Ainda o tenho, avô. O meu primo venera-o com a mesma intensidade com que eu o venerei quando mo ofereceste.

Amanhã, estarás comigo, naquele estádio. Gritaremos juntos. Afinal, foste tu que me ensinaste que o Sporting não se troca por nada. Nem mesmo pelas corridas de ciclismo. Obrigada por me teres acordado tão cedo. Obrigada por teres acordado este amor.

Rugido de uma leoa!