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O circo da aldeia

por 11 de Março de 2015Os textos do Damas0 Comentários

Esta noite tive um sonho.

Normalmente não me recordo de sonhos que não envolvam várias pessoas do sexo feminino vestidas de enfermeiras, mas este foi um sonho estranho e totalmente diferente.

Sonhei que ao longe via uma tenda de circo.

Mais de perto, o pano da tenda, verde e vermelho, estava roto, cheio de buracos, rasgões e remendos. Via-se que em tempos tinha sido majestoso, capaz de ombrear com os melhores do mundo, mas agora estava em decadência…

O bilhete era caríssimo. O bilhete para uma família completa era ainda mais caro, mas oferecia desconto para o psicólogo infantil ou posto médico na aldeia mais próxima. Estranho. Entrei.

À entrada fui recebido por um tipo muito gordo e um outro que tentava passar despercebido que me indicaram para o meu lugar. Sentei-me.

Nas bancadas enormes em madeira não havia mais que um punhado de pessoas, mas havia câmaras para transmissão televisiva.

O primeiro número foi estranho. Uma morena roliça vestida com um fato azul justo desfilou com um sorriso enorme e ornada com frutas na cabeça “à là Carmen Miranda". Foi amarrada a um alvo redondo em madeira por um senhor já um tanto idoso, careca, de sorriso irónico e gestos lentos. Depois apareceu um tipo com casacão azul e branco, risco ao meio no cabelo aloirado e com sotaque espanhol, que começou a atirar facas de ponta-e-mola ao alvo onde estava amarrada a assistente. A assistente gemeu de dor com sotaque brasileiro, duas ou três facas com que o espanhol lhe acertou. Não admira, estava de olho distraído e invejoso no número que estavam a montar entretanto no centro da tenda.

Era um trapézio voador.

Surgiu um tipo com fato de licra justo vermelho e cabelo comprido esbranquiçado. Deu as boas noites e tentou dizer num português falho e macarrónico o truque que ia fazer a seguir. Engasgou-se 2 ou 3 vezes nos verbos e desistiu. Pegou na vara comprida e tentou atravessar o arame, mas estava sempre a cair. Só que tinha 3 tipos cá em baixo a agarrarem cordas à volta da sua cintura, além da rede de segurança, e que o estavam sempre a recolocar no arame. Às tantas a vara já tinha caído cá para baixo e o trapezista parecia agora que voava, seguro pelas 3 cordas até ao fim do seu percurso. Um número muito pouco interessante… Ainda assim, o punhado de espectadores aplaudiu muito. Alguns de pé.

Notei então que 3 palhaços passeavam uma jaula à volta da arena. Lá dentro, um velho leão branco e a sua cria eram chicoteados pelos palhaços que se riam muito. Apreciavam especialmente chicotear a cria de leão, que era quando se riam mais. O público atirava os churros e as farturas à jaula e riam muito, também.

Não tive coragem para ver mais. Saí, e à porta o gordo despediu-se, muito contente. Convidou-me a voltar mais vezes, enquanto o outro tipo ao lado dele tentava passar despercebido.