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Se Fosse Ao Contrário

por 6 de Fevereiro de 2015Os textos do Damas0 Comentários

Nestes dias, existe uma mística que envolve o ar. A noite anterior esteve irrequieta porque ninguém foi capaz de silenciar os cânticos que nos habitam a cabeça. Há uma semana que fomos possuídos por uma ansiedade que não se verga.

Quem é que tem conseguido passar mais do que dois minutos sem pensar no jogo de hoje? Quem é que tem tido capacidade para não criar possíveis desenlaces durante os noventa minutos? As equipas titulares, as tácticas minuciosamente preparadas, o ambiente de uma casa cheia, a coreografia inicial e o nosso destino irão desembrulhar-se dentro de poucos minutos. Este desporto, detentor do maior número de amantes espalhados por todo o mundo, consome as nossas mentes e tritura a racionalidade humana. É a prova de que o amor não tem uma definição concreta e pode estar preso a um emblema.

Tento abstrair-me das vozes para guardar esta visão magnífica: são cerca de 50 mil pessoas concentradas num campo com 105 metros de comprimento e outros 68 de largura. Sinto um arrepio na pele quando o speaker anuncia a entrada das equipas. As crianças agitam os cachecóis, a Curva Sul puxa pelos espectadores, os mais idosos retiram os auriculares que utilizam para ouvir o relato e eu confirmo, uma vez mais, que somos os melhores adeptos de Portugal.

Procuro o rosto dos jogadores na esperança de encontrar a vontade que vi no olhar do Luís, do Manuel, do João, da Sofia... Nós, sportinguistas, temos uma mania incurável que já nos proporcionou algumas desilusões. Gostamos de jogadores com técnica, capazes de empolgar um estádio inteiro com dribles brilhantes, remates fulminantes. Gostamos de jogadores velozes que arrancam para cima do adversário. Contudo, os jogadores de que gostamos mesmo são aqueles que sentem o peso do nosso manto sagrado na pele. Aqueles que correm para evitar um canto da equipa adversária com a mesma raça de quem está prestes a marcar um golo. Aqueles que choram uma derrota com a mesma intensidade de quem celebra uma vitória. Aqueles que beijam o símbolo com o carinho do Miguel, com o respeito da Rita... No fundo, sonhamos com jogadores que estejam dispostos a perceber o que é ser do Sporting Clube de Portugal.

Há um frenesim de exclamação e espanto que me desperta os cinco sentidos, adormecidos com o desenrolar do meu último pensamento. Tento visualizar o relvado, mas existem dezenas de pessoas à minha frente com máquinas e telemóveis na mão a gravarem um momento que não consigo decifrar. Coloco-me em bicos de pés. Não via o Nani nem o William Carvalho. Não via o Carrillo nem o Adrien. Podia ler os seus nomes nas camisolas listadas, mas desconhecia as pessoas que se preparavam para jogar. O homem alto e moreno que vestia a camisola do Rui Patrício pegou num microfone.

- Boa noite, Alvalade. - Uma salva de palmas. - Eu sou sócio do Sporting desde que nasci. Os meus dois filhos são sócios do Sporting desde que nasceram. Hoje estão na mesma bancada onde estiveram contra o Famalicão. Quando joga o Sporting, não faltamos. A nossa equipa ainda se encontra no túnel e eu quero que a recebam com as bandeiras levantadas e os cachecóis esticados bem acima das vossas cabeças. - Não percebo o desenrolar dos acontecimentos. O relógio marca as 20:02, o que significa que o apito já deveria ter suado há dois minutos. Depois da fotografia habitual do onze titular, os jogadores começam a ocupar devidamente as suas posições, perto dos indivíduos que utilizam o equipamento.

- Todos os que estão aqui presentes, hoje, sabem que o Sporting precisa de vencer o jogo para continuar na luta pelo título de campeão nacional. Cada um de vocês, neste preciso momento, deverá estar a questionar-se sobre o porquê de termos entrado no lugar dos nossos jogadores. Querem que eu vos explique? - O silêncio congelou o estádio. - A nível de apoio, dedicação e amor, não temos rival. - Os espectadores rebentaram de alegria e havia muitos olhos, à minha volta, repletos de lágrimas. - Hoje temos de ganhar! Hoje temos de continuar a sonhar com uma realidade que nos escapa há demasiados anos! Hoje temos de ser tão invencíveis no campo como somos nas bancadas! Nós acreditamos em vocês!

- Sporting! Sporting! - Gritamos, em uníssono. Estava a presenciar algo histórico e, com um sorriso rasgado, agarrei-me a todos os meus amigos enquanto, lá em baixo, os sócios despiam as camisolas, entregando-as, num gesto simbólico, àqueles que nos representam oficialmente.

 

Rugido de uma leoa