be

Os Velhinhos do Banco do Jardim

por 15 de Fevereiro de 2015À saída do estádio0 Comentários

Desço a avenida que antecede o parque enquanto o vento me vai empurrando. As nuvens, carregadas, ilustram o meu estado de espírito e a balada, que vem dos fones, dirige a banda sonora. Alguma vez tiveram a sensação de que a música que estão a ouvir se poderia enquadrar na paisagem que vos enrola? A melodia desenvolve e as folhas das árvores vão dançando calmamente. A melodia desenvolve e o pai, já grisalho, beija a cabeça do pequeno filhote antes de entrar no autocarro. O sol vai brincando às escondidas com as flores da vivenda amarela e as gaivotas voam por cima da minha cabeça e tentam roubar-me os pensamentos.Eu vou descendo a avenida que antecede o parque.

No parque, existem três bancos velhos e gastos e eu sempre escolhi o do meio, mesmo quando todos se encontram vazios. O meu corpo procura, nos pequenos actos, o equilíbrio que nunca encontrou na vida. Quando gosto, eu amo. Quando erro, eu peco. Quando perco, eu choro. Quando ganho, eu choro. Quando choro, eu amo. Sem moderação e sem controlo. A noite de ontem foi outro balde de água gelada e eu já tinha o cabelo mais ou menos seco do fim-de-semana anterior. O que é que se conquista quando não somos capazes de vencer?

Os óculos, garrafais, descem-lhe pelo nariz achatado. Parece que a vida lhe foi diminuindo os olhos, que, muito pequeninos e azuis, se escondem atrás das lentes, mas enriquecendo o olhar. A boca sorria quando olhava para ela, que lhe passava a mão pelos cabelos brancos resistentes. A mão dele cobria a mão dela e eu tive a certeza de que aquelas mãos não se largaram desde que se sentiram pela primeira vez. Quando vejo os velhinhos do banco do jardim, consigo ler as histórias dos baldes de água fria que já levaram através das suas rugas, mas essas nunca foram maiores do que as histórias de amor. Se fossem, não seriam os velhinhos do banco do jardim. Seriam apenas os velhinhos, um em cada banco. Quando vejo os velhinhos do banco do jardim, questiono-me acerca das desilusões que superaram, das lágrimas que já gastaram um pelo outro, dos erros que cometeram e da capacidade que encontraram para continuarem juntos até ao fim.

Nós não temos bancos de jardim, mas temos bancadas para preencher. Nós não precisamos de lhe passar a mão pelos cabelos, mas temos de cantar até ficarmos sem voz. Nós temos de ser fiéis e mantermo-nos unidos se queremos que algum dia escrevam sobre a nossa paixão, se queremos ser os velhinhos do banco do jardim. É difícil, duro e frustrante em determinados momentos, mas quando precisarem de arranjar força, desçam a avenida que antecede o parque. Ser do Sporting Clube de Portugal não é dar as costas à equipa nem assobiar para o lado quando as gavetas não estão arrumadas. Não é procurar incessantemente um bilhete para o derby e ficar em casa quando está a chover e jogamos contra o Belenenses. Não é elogiar, até o roupeiro, quando vencemos há seis jornadas consecutivas e apontar o dedo, sem piedade, quando percebemos que a equipa não sabe o que fazer à bola no último terço do terreno.

Temos de ser coerentes e aprender que não está tudo bem quando ganhamos, nem tudo mal quando não o conseguimos fazer. A todos aqueles que, tendo capacidade para tal, não se deslocam para apoiar os nossos jogadores, eu digo: escolheram o clube errado. O vosso amor não pode ser eterno se o apoio não for incondicional.

 

Rugido de uma leoa