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O Fado do Sporting

por 10 de Fevereiro de 2015Hoje é a tua vez0 Comentários

Ontem foi um dia diferente por todas as razões. Amo o Sporting, e este amor é totalmente inexplicável. Deu-me amigos incríveis, apresentou-me o meu futuro marido (credo, que coisa estranha de ver escrito ainda), e pessoas que tenho o gosto de ler e que me ensinam uma série de coisas, nomeadamente valores que o meu pai me incutiu, mas que uma vez que já não está por cá, foram continuados neste fórum. Ontem foi mesmo diferente.

Cheguei a Alvalade estupidamente mais cedo. Não queria confusões, tenho ataques de pânico em locais fechados, e como ontem era um jogo de casa cheia, abandonei as roulotes e entrei no estádio assim que consegui porque a moldura humana cá fora era que como um espaço fechado. Estava estupidamente ansiosa. A experiência ensinou-me a não ser muito esperançosa e raramente partilho da confiança dos que me rodeiam.

Ontem foi dos jogos mais bem conseguidos da parte da nossa defesa esta época. Cortes imperiais, garra, rapidez, inteligência. Paulo Oliveira fez-me levantar da cadeira várias vezes de tão bestial que foi. Tobias a celebrar o seu próprio aniversário. Jefferson é fundamental. Cédric teve das suas falhas de sinapses, mas disse presente em momentos cruciais. O meio-campo teve o controlo do jogo. Foi aliás aqui que todo o jogo aconteceu. William Carvalho, o meu MVP, relembrou o porquê de o termos apelidado de Sir; Adrien nunca virou a cara e é um jogador que cada vez mais admiro, não é brilhante, há algo que lhe falta no capítulo mais ofensivo, mas a ganhar e guardar bola, mesmo no 1 para 2 faz cada vez mais a diferença. João Mário tem um pulmão inacreditável e só espero que a qualidade se mantenha no futuro.
Onde nos faltou brio foi na frente. Onde anda Montero? Carrillo mais displicente que o costume e Nani a ter que largar a bola mais cedo. Mané não desenvolve, Capel não era para aquele momento do jogo e Tanaka sem tempo para muito mais.

Mas fomos equipa, fomos superiores, em luta e em mentalidade. Não nos mandámos para o chão, não fizemos faltas feias, não perdemos tempo porque sim. Faltou mais inteligência no ataque, e penso que a equipa visitante só não acelerou o jogo porque JJ não quis. JJ, excluindo os títulos ganhos ao serviço da dita agremiação, tem o mesmo travo que nós Sportinguistas – o travo de morrer na praia, nos momentos dos descontos. E foi esse travo que ontem pautou o jogo. Pode dizer-se que é uma forma repugnante de ir a jogo, e com as habituais ajudas extras (vide arbitragem), tem-se o suficiente para permanecer no 1º lugar com uma folga confortável. Há duas jornadas escrevi que até aos 97′ ainda havia campeonato. ’92 e ’94 continuam a ser tempos que dizem bastante a ambas as equipas, e JJ desta vez foi bafejado pela sorte dos ’94. Quanto ao Sporting, é preciso ver e rever que os últimos segundos são para despachar a bola para o mais longe possível de Rui Patrício, porque este Clube tem um malfadado Fado.

Este Fado que é o Sporting é no entanto impressionante. A par talvez do golo do Miguel Garcia em que cortei um dedo e o meu pai abriu a cabeça no candeeiro, o golo do Jefferson foi o golo que mais celebrei na vida. Abracei os meus, saltei para cima da cadeira, coisa que nunca tinha feito, abracei os desconhecidos em volta, pulei, cantei, agitei o cachecol como nunca. Olhava em volta e o estádio estava todo de pé, sorri tanto que nem consegui chorar. Ao fim de 3min tive que me apoiar na cadeira ofegante, pois os meus 38º de febre deram um ar da sua graça e fiquei tonta, mas com o peito cheio duma alegria, duma felicidade que não tem explicação possível. E por mais adjectivos que procure, é impossível mensurar o que ontem aconteceu pelo meu corpo. Foi como se a minha alma tivesse sido apoderada pelos 47000 leões que lá estavam, e o meu coração fosse saltar do peito. Deixei de conseguir olhar para o relvado. Aquela união, aquela alegria eram demasiado desconcertantes para tentar ver futebol. Era preciso que os jogadores sentissem que nós estávamos em campo com eles.

Ontem foi diferente, o golo do adversário foi como uma rajada de gelo cortante na cara. O meu queixo caiu, e só o fechei quando o maxilar começou a latejar, e num ápice deixou de doer. Lembrei-me do jogo com o Schalke, lembrei-me da injustiça, lembrei-me da revolta que senti. E ontem não consegui sentir essa revolta, por mais cortante que tenha sido este empate. Chamem-lhe vitória moral, chamem-lhe o que quiserem. Eu preferiria de caras ter perdido o jogo, do que deixar jogar para conseguir um empate. A verde e branca é para suar. É para vestir com segurança, garra e respeito.

Não foi aqui que perdemos o campeonato. Tenho sérias dúvidas, mesmo com 40 pontos em discussão que o Sporting seja campeão. O problema foram todos os outros empates cedidos. E o que me irrita realmente é que a equipa que se apresentou ontem contra nós pode vir a sagrar-se campeã outra vez sem jogar um charuto, e com jogo atrás de jogo cheio de lances ilegais.

Quanto ao comportamento dos adeptos, é repugnante e hediondo celebrar o assassinato de um adepto e ainda tentar repetir o acto na nossa própria casa. E aqui culpo todos os intervenientes.

Culpo quem não controla a entrada destes artefactos, culpo quem os traz, culpo quem os arremessa, culpo quem não os pune. No entanto, não deixo de referir que também do nosso lado há dedos a apontar. Não nos podemos intitular de diferentes e lançar do mesmo para jogadores e evocar a morte de alguém, por mais que nutramos desprazer para com o mesmo. Considero muito mais grave arremessar contra homens, mulheres, crianças e idosos, mas não deixa de ser criminoso arremessar a jogadores adversários.

É obrigatório ser-se correctamente inteligente! É obrigatório dar o exemplo! É obrigatório nunca descer ao mesmo nível, por mais que nos aticem, por mais que nos ofendam.

Um dia quero levar os meus filhos ao estádio e sentir aquilo que nunca senti com o meu pai presente. Eu nunca fui a um jogo com o meu pai. Nunca partilhei a tristeza das derrotas e a alegria das vitórias na nossa casa. Mas quero um dia que os meus filhos fiquem eufóricos comigo, quero que sintam, nem que seja uma vez, a explosão de alegria que eu senti, quero que se agarrem a mim e gritem golo. Quero não ter medo que lhes aconteça o pior, quero que eles não tenham medo, quero que respeitem a integridade física dos que os rodeiam. Quero que eles também sejam o 12º jogador!

Ontem foi diferente, e podia ter sido tão mais.

 

Carolina Castaño Simões – Sócia nº 82870-1