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A lágrima do desmame

por 6 de Janeiro de 2015A nossa Selecção, O Sporting lá fora, Os textos do Damas0 Comentários

Apreensivos no campeonato, agora que a telenovela de destaque na comunicação social vai acabando, podemos esperar um futuro risonho mas não irei usar a expressão de “Para o ano é que vai” mandando a pressão para cima dos outros, e ficar feliz por ter futuro, mesmo sem um presente. Neste mês de Janeiro serão gastas as últimas senhas para que terceiros tenham investimentos em jogadores. Quem o fizer terá de respeitar o prazo máximo de duração de um ano (fora os contratos já a decorrer) e depois disso… acabou a mama. Manda a FIFA!

Em vez de tentar arranjar uma frase de Oscar Wilde ou um pensamento de Charles Bukowski hoje guio-me pela História e pela Ciência. Em 1848 as borboletas Biston Betularia brancas sobreviviam em maior quantidade aos predadores do que as negras. Esta capacidade de camuflagem ocorria no seu local de descanso nos líquenes claros dos troncos das árvores onde as negras não fugiam aos olhos das aves, os seus predadores nº1. Em 1898 o tom de negro a revestir as árvores, diretamente relacionado com a revolução industrial fez com que as mais escuras sobrevivessem ao contrário das brancas que mal chegavam a idade adulta para poderem dar continuação à sua espécie. Esta troca de vítimas, em Manchester e outras zonas industrializadas, seguiu o caminho da seleção natural onde o meio ambiente tem forte impacto. Será o Sporting uma borboleta branca num cenário global muito próximo? Estarão os troncos das árvores a ficar mais claros?

Senão vejamos. O Porto detém apenas 20 por cento do passe de Brahimi e poderá ativar a recompra do valor remanescente até 2017. O Sporting já recuperou bastante percentagem dos passes de alguns jogadores mas ainda sofre de outras alienações, tentando claro, obter a totalidade dos mesmos a médio prazo. Os benfiquistas já se acostumaram à saída do Garay por parcos milhões de euros, tendo em atenção que foi um dos jogadores mais influentes do plantel e ainda não atingiu uma idade de relativo desvalorizamento.

Iremos deixar de ter castelos, para inglês ver, sem conteúdo no seu interior. O tamanho de um clube não mais terá essa banda gástrica a ocupar espaço, que são os fundos, e irá nascer uma resposta imperativa que é a formação e consequente aproveitamento da mesma. O povo irá dizer que se vai perder competitividade no campeonato mas a ter que existir diferença entre o antes e o depois apenas se poderá culpar a dependência aos fundos de dinheiro com fontes desconhecidas. Os jogadores não irão ficar mais pequenos e temos carradas de bons técnicos portugueses. Noutros países o caso é bem mais bicudo e se a Seleção Nacional vai sugerindo alguma renovação não podemos esperar que Inglaterras, Espanhas ou Alemanhas formem jogadores portugueses para qualquer posição na qual se destaquem.

Esperaremos então por essa altura em que críticos e renascentistas quererão a cabeça do presidente do Sporting Clube de Portugal numa travessa, a apontar o dedo em eventuais desaires europeus devido à qualidade precária dos plantéis, acusando-o de fazer um “sururu” nas orelhas da FIFA. Teremos de ouvir os agonios de quem quer ser campeão à base de cartões de crédito e más disposições de quem não pode ir comer fora à custa das sobras de uma transação. Estaremos preparados? Sim, até estamos em pulgas para que aconteça o mais rápido possível.

A visão encarnada da saída precoce da Europa nesta época não teve muitos tumultos. Os também arredados da Taça de Portugal têm um quase exclusivo campeonato para agarrar e nem os outros do norte parecem muito preocupados com isso, agora que também estão fora da Taça. Não se importarão de ficar de mãos dadas no 1º e 2º lugares do campeonato se isso os fizer chegar à próxima Champions. Sempre dará para suavizar esse dinheiro do monopólio (sim, o jogo) com as verbas a recolher da Liga Milionária para que o ajuste ao mundo real seja eficiente. O problema é se o nosso grande amor se mete ao barulho para disputar um desses lugares. Não admira que a preocupação nacional se volte para Brunos, Marcos ou Eduardos. O sítio de onde vêm é um forte inimigo à preservação da borboleta de cor negra, num habitat escuro e corrompido pelo capitalismo do homem.

Medo… só mesmo de nós próprios!