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É Uma Bela Canção De Amor

por 28 de Janeiro de 2015Hoje é dia de Sporting0 Comentários

O cabelo, salpicado por várias tonalidades de um castanho não muito escuro, escorre-lhe até aos ombros. A pele, extremamente branca, deixa que os seus lábios, embora finos, façam sobressair a boca. Deixo-me contagiar pelo seu sorriso rasgado e pelo olhar entusiasmado de quem vai à bola ao Domingo à tarde. Há quem diga que ela tem os olhos verdes porque o amor que sente pelo Sporting não lhe pintou apenas o coração…

– Ainda acreditas? – Pergunto, com um tremor na voz.
– Eu nunca deixei de acreditar.
– Então por que é que hoje existe um brilho à tua volta e as lágrimas balanceiam nas tuas pestanas?
– São muitos anos, sabes? Muitos anos de dedicação a uma fé e de empenhamento numa crença. É o acumular das noites em que troco o meu peluche pelo cachecol depois das derrotas. É o acumular das vozes que se preocupam mais em adoecer esta paixão do que em alimentar e preservar a outra em que acreditam.
– Cansa? Quero saber se te cansas de depositar as tuas forças nisto.
– O que é que tu sentias quando eras criança e os teus colegas te roubavam o teu brinquedo favorito?
– Raiva, talvez. Quando somos pequenos, não nomeamos os sentimentos. – Respondo sem perceber para que lado está a remar.
– Primeiramente, foi o que senti. Quiseram roubar-nos uma alegria, enxovalhar-nos. Pisavam o nosso “brinquedo” todos os dias à frente dos nossos olhos para que ele se partisse e nós deixássemos de gostar dele. E nós já não somos pequenos. Sabes por que é que a táctica deles nunca resultou?
– Não.
– Imagina que te devolvem o brinquedo completamente desfeito. Choras sozinho, a um canto, abraçando-o com muito carinho, mas sabendo que não há nada que o possa salvar. De repente, há uma voz que te chama e que te diz que conhece um caminho longo, tumultuoso, agreste e bastante selvagem mas que, no final, tem aquilo que tu precisas para salvar o brinquedo que está a morrer nos teus braços. O que é que fazes?
– As crianças não têm régua para medir as consequências. Dava a mão a essa voz.
– Estás errado. Não são as crianças. São os apaixonados. As crianças apaixonam-se pela vida e por todas as coisas que lhes provocam aquela adrenalina que todos nós já tivemos quando a campainha tocava, o sol abria e podíamos correr para o recreio. À medida que vamos crescendo, também nos vão tirando a paixão pelas coisas porque nos mostram os espinhos que existem neste carrossel. Só voltamos a cultivar loucuras desmedidas e a andar debaixo de chuva torrencial sem pensar nas consequências quando nos apaixonamos por alguém.
– O que é que queres dizer?
– Eu apaixonei-me pelo Sporting. Dei a mão à voz porque ela só me pediu a única coisa que eu sei dar: entrega a este clube. E isso não me custa nada. Quero que os nossos jogadores acreditem como eu porque são os únicos que podem suar a camisola e materializar os nossos desejos. Sabem que terão o melhor apoio de Portugal, sabem-no muito bem. Interessa-me que, depois dos 90 minutos de todas as finais que temos pela frente, o símbolo tenha sido honrado. Estamos vivos.
– O que é que lhes gostavas de dizer?
– Deixem-nos sonhar… Nós ficamos loucos só por podermos sonhar e não imagino o que seria se o nosso sonho saltasse para a realidade.

 

Rugido de uma leoa