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As leis consoante a cor das camisolas

por 11 de Novembro de 2014Os textos do Damas0 Comentários

O João e o David são dois grandes amigos, daqueles que se conhecem desde sempre e que partilham a paixão pelo futebol e em particular pelo Sporting. Como é habitual todas as semanas, o João e o David encontram-se à segunda-feira, depois do trabalho, para beber uns finos e falar sobre os jogos que se realizaram durante o fim-de-semana.

Depois de mandar o primeiro gole no seu caneco, o João iniciou a conversa.

João – Então e viste o jogo no Domingo? Chiça, aquela primeira parte foi para esquecer…

David – Foi mesmo. E o problema é que os gajos jogavam bem. Assumiram o jogo sem medo desde o apito inicial do árbitro e estava-se mesmo a ver que aquele golo ia acontecer. Pensava eu que eles tinham aprendido a lição em Guimarães e confesso-te que depois da vitória com o Gazprom, ainda mais convencido fiquei. Mas afinal ainda há muita coisa para corrigir na atitude da equipa.

João – Pois há! Não acredito que aquilo tenha sido desgaste físico. Estamos bem lixados se a esta altura do campeonato eles já se sentem desgastados. Eu acho que aquilo foi confiança a mais. Pensaram que o golo ía surgir a qualquer momento, sem que tivessem de lutar muito por isso. Correu-lhes mal. O Paulo Que-só-treina-bem-o-paços-de-ferreira também trazia a lição bem estudada. Viu tantas vezes o video do jogo com o Guimarães, que lá absorveu a fórmula para impedir que o Sporting pegasse no jogo, pressionando logo na fase de construção, nomeadamente o William e o Adrien, que bloqueados nesse pressing, acabaram por passar ao lado do jogo.

David – Pois foi, foi isso mesmo que aconteceu. E depois aquele fiscal de linha que invalidou o golo ao Montero também não ajudou nada. Não percebo o que é que o gajo viu ali, sinceramente. O Slimani estava fora de jogo mas não tocou na bola. Estes gajos tinham de inventar qualquer coisa para fazer com que o Sporting perdesse mais uns pontos. É sempre a mesma história.

João – Sabes que muito recentemente houve umas alterações na lei do fora de jogo. Agora os tipos dizem que o jogador mesmo não tocando na bola, pode influenciar a jogada de forma indirecta e, neste caso especifico, o Slimani poderá ter iludido os defesas no momento em que se faz ao lance, deixando o Montero com mais tempo e espaço para finalizar. Olha, não sei o que diga quanto a isso. A verdade é que tivemos várias oportunidades para marcar e não o fizemos. Se tivéssemos entrado com mais vontade na primeira parte, provavelmente teríamos marcado um ou dois golos e a esta hora, já não estaríamos a lamentar os desperdícios na segunda.

David – É verdade. Podíamos ter feito mais. Não podemos estar sempre à procura dos erros dos outros para estar a justificar as nossas falhas. O bandeirinha até pode ter metido água, mas isso não desculpa a falta de atitude com que a equipa entrou em campo. O Marco até mexeu bem, como aliás mexe sempre, mas jogar apenas uma parte de forma séria acabou por ser curto demais para dar a cambalhota no resultado.

João – O Sporting tem de perceber de uma vez por todas que, para todos os jogos, temos de estar mentalizados da possibilidade de termos de defrontar duas equipas e não apenas uma. Já a época passada assim foi. Fartamo-nos de perder pontos fruto de erros que eles querem fazer parecer “inocentes” e “normais” no futebol, mas a verdade é que acontecem quase sempre contra nós e essa tendência retira toda a normalidade à questão. Só fazendo muitos golos é que nos safamos. Não nos podemos dar ao luxo de estar muito tempo empatados numa partida, ou de termos uma vantagem mínima no resultado, pois nunca sabemos quando é que eles vão ignorar uma mão dentro da grande área adversária, ou inventar algum fora de jogo para o Montero. Não podemos desperdiçar as oportunidades que temos para marcar se não estamos sempre lixados. Não temos a mesma sorte de outros que lá conseguem umas vitórias pela diferença mínima no marcador, graças a erros de arbitragem que constantemente os favorecem. O carnide não jogou nadinha e mesmo assim conseguiu somar 3 pontos. Viste o jogo? Viste os lances críticos?

David – Vi, claro. O Jonas no segundo golo estava tão em linha como o jogador do Rio Ave na luz, e o golo anulado ao Nacional é uma anedota autêntica. O jogador vinha de trás, nem sequer partiu em linha com o penúltimo defesa. Mas eu já estava mesmo a adivinhar que o gajo ia levantar a bandeira. Isso tinha de ser mais bem falado, eles sofrerem um golo naquela altura do jogo. Ainda por cima, depois daquele assistente ter validado o golo ao Jonas na primeira parte, percebeu-se logo que o carnide tinha ali um amigo prontinho a ajudar. E assim foi. Se o lance do Slimani tivesse acontecido na Choupana ao ataque encarnado, não tenho qualquer dúvida de que o golo seria validado. Nenhuma mesmo.

João – E o Enzo e o Maxi Labrego? Viste a limpeza que aquilo foi? Sempre a dar pau aqueles dois durante o jogo todo. O Enzo safou-se de boa, não viu amarelo nenhum durante os 90 minutos e o Maxi, só ao cair do pano é que ficou amarelado. Claro que era chato se ele tivesse visto o cartão mais cedo, aumentava o risco de ele ser expulso e o carnide ficava sem o seu caceteiro de serviço. É incrível a quantidade de jogos que aquele sarrafeiro passa a distribuir fruta pelos adversários sem que nada lhe aconteça. O gajo deve ter daqueles aparelhos tipo os da Via Verde ou o caraças, é sempre a andar e tudo lhe é permitido. Já os do Sporting, à mínima coisa, os tipos não perdoam. O Mané até viu um cartão amarelo porque queria jogar futebol, ao contrário dos jogadores do Paços que só queriam era chão e descanso. Ao ridículo que isto chega…

David –  O futebol português parece que ficou congelado algures no passado, não há qualquer evolução positiva que melhore o nosso campeonato. É triste para aqueles que gostam da modalidade vê-la ser corrompida desta forma. As leis e as decisões variam consoante as camisolas que estão em campo, e mais importante do que manter a verdade desportiva, é mesmo contribuir para o sucesso de alguns e para a desgraça de outros. O futebol em Portugal é um jogo viciado. Época após época, os campeões são escolhidos em mesas de restaurantes ou em salas de hotéis. É triste assistir a tudo isto e ver um desporto fantástico como o futebol ser adulterado e manipulado pelos que detêm o poder. Por vezes desanimo com isto. A única coisa que ainda me mantém ligado é a paixão pelo nosso Sporting. Eles podem levar a verdade mas não levam o meu amor.

João – Ora, brindemos a esse amor. Venham daí mais dos finos…