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Certas Feridas No Orgulho

por 5 de Novembro de 2014Hoje é dia de Sporting0 Comentários

São Paulo, Brasil, 9:30

Hoje, para Manuel, o dia acordou diferente. Sempre que joga o Sporting, há uma batalha que se trava dentro do seu corpo: a paixão pelo clube contra a calma e o discernimento necessários para que permaneça focado nas tarefas do quotidiano até à hora da partida. Apesar de ser um dois para um, a calma e o discernimento nunca conheceram a vitória. A sua eterna paixão é líder invencível perante todos os adversários que já a tentaram enfrentar, enfraquecer. Desta forma, nem mesmo os quase oito mil quilómetros que separam Lisboa de São Paulo conseguem fazer com que Manuel deixe de vestir a camisola com o leão rampante e coloque o cachecol verde e branco quando o seu coração precisa de controlar as incalculáveis saudades: do ambiente nas roulotes antes do jogo; da adrenalina que invade o sangue durante o tempo de espera nas filas para entrar para o estádio; de ver a equipa à frente dos seus olhos, de forma a que seja possível sentir o esforço que depositam em cada lance, o suor que vai caindo da testa dos vários jogadores, a frustração depois de um golo sofrido ou a alegria que lhes transborda do olhar quando a bola beija as redes; dos cânticos que acompanha durante os noventa minutos vindos da Curva Sul e que o deixam sem voz; do Sporting.

Hoje, antes de sair de casa, Manuel ligou o Skype para desabafar tudo aquilo que já não lhe cabia na alma.

– Manel, como estão as coisas por aí?

– Estou super ansioso para o jogo de logo à noite, dormi muito mal. Vais a que horas para o estádio?

– Ah… Sabes… Se calhar hoje fico por casa.

– O quê?! Mas o que é que te aconteceu?

– Nada, Manel. Aquela exibição em Guimarães é que me deixou sem vontade.Manuel baixou a cabeça, cerrou os punhos, fechou os olhos.

– Tu estás a gozar com a minha cara?! Achas normal aquilo que me estás a dizer?! Fico louco com esses comentários. Louco! Eu dava tudo para poder estar presente em Alvalade e tu, que só precisas de andar meia dúzia de metros para apoiares o Sporting, o NOSSO Sporting, dizes-me que estás sem vontade por causa da exibição em Guimarães?! Isso é inimaginável!

– Manel…

– Manel?! Não envergonhes mais os nossos adeptos, prefiro que estejas calado. A equipa precisa do nosso apoio! Sabes, pelo menos, que vamos jogar contra aqueles que não mereciam ter ganho há duas semanas? Quando me falas de Guimarães, pensas no que é os nossos jogadores sentiram quando conseguiram chegar à igualdade, na Alemanha, para logo de seguida verem toda a dedicação ser manchada por factos que os tornam impotentes? Jogámos mais de quarenta e cinco minutos com menos um, caramba! Recuperámos de uma desvantagem não de um, mas sim de dois golos! Foi a derrota que mais me custou nos últimos tempos. Tive vontade de chorar, de deixar de acreditar no futebol… Mas nunca, nunca pensei em abandonar as nossas cores e esperei fervorosamente pelo dia de hoje. Hoje temos a hipótese de mostrar o tecido de que somos feitos, de elevar o Sporting Clube de Portugal ao mais alto nível porque estaremos perante um palco que nunca deixou de nos pertencer. E tu, meu amigo, se não saíres de casa para acompanhares a equipa neste momento, mantém-te dentro dela quando puderes celebrar as vitórias. Não tens, de certo, a noção daquilo que sinto por não ter a tua sorte. E sabes o que é que me deixa mais triste? Sou um num milhão. Tens o dever de representar cada um de nós, de cantar, saltar e gritar por todos aqueles que, como eu, serão obrigados a ficar colados à televisão ou a um stream sem condições.

Dá a cara.

Rugido de uma Leoa