• nani
  • zero1

Quando fui à Bimbolândia

por 19 de Outubro de 2014À saída do estádio0 Comentários

Parto para o início deste texto ainda com duras mazelas do maravilhoso dia de ontem. Aviso-vos, desde já, que não existirá nenhuma análise tática sobre o jogo no Dragão. Hoje, não é com isso que me quero dirigir a vocês. Hoje, vou apenas deixar o relato de quem viveu, fez e acrescentou, mais uma bela página de história no Sporting Clube de Portugal.

– Estacionei junto à STCP. Coloquei o cachecol, respirei fundo e partilhei um desabafo com os meus fiéis companheiros leoninos: ” Hoje, tenho um feeling de que isto será diferente…”. Eles sorriram, timidamente. Estavam cientes de que vencer neste estádio é sempre complicado, ainda assim, eu também sabia que no seu íntimo, no íntimo de todos, existia um acreditar gigante.

Pouco passava das 15he30 quando os autocarros começaram a chegar em força ao local destinado para a concentração leonina. As sirenes ouviam-se ao longe, o aparato policial era impressionante e as poucas centenas de adeptos que já se encontravam no local, iam ensaiando os primeiros cânticos. Apareceu o primeiro autocarro, o segundo, o terceiro e, quando dei conta, se calhar já eram mais de vinte. Os vidros dos autocarros estremeciam, o chão abanava e o rugido da multidão leonina começava a ganhar uma força brutal. E esta é uma imagem que ainda está cravada na minha memória e que ainda me deixa arrepiado (será uma imagem que irei guardar para sempre como uma das mais bonitas manifestações de apoio a que assisti enquanto Sportinguista). O fumo verde, os cânticos, as bandeiras, acompanhavam os restantes autocarros que chegavam ao local e, num ápice, estavam ali quatro mil leões com as garras de fora, cheios de força e vontade, preparados para uma batalha que achávamos possível vencer.

A polícia deu o sinal para avançar. Ao ritmo do tambor, fomos cantando, saltando e insultando tudo o que, de azul, se cruzava connosco. Chegámos à porta do estádio do Dragão em quinze minutos. Depois de uma revista minuciosa, entrámos para ocupar um espaço que tinha capacidade para duas mil pessoas. Éramos quatro mil, mas isso não foi um problema. Somos uma família e, onde cabe um, cabem dois. Saltámos e apoiámos em uníssono. Lá em baixo, pouco antes do apito inicial, Nani apercebeu-se da onda verde no topo do estádio e, com um levantar de braços, pediu-nos ajuda. E nós ajudámos.

"Onde tu fores eu vou lá estar...", " O nosso amor, a nossa fé, vamos cantar, Sporting allez", "Quem não salta é tripeiro", foram os nossos incentivos. Lá em baixo, os rapazes de verde e branco comportaram-se com dignidade e com a classe de um clube grande. O jogo avançou e fizemos o primeiro. "Golo!", gritámos todos. Foi a primeira manifestação da Onda Verde dentro da Bimbolândia. Abraços a desconhecidos, muita emoção à flor da pele e um sentimento cada vez mais intenso de que tinha tudo para ser um grande dia. Pouco depois, no relvado, sofremos um contratempo. O Porto empatou. Foi altura de apoiarmos ainda com mais força, ainda com mais convicção, porque os nossos leões estavam a ser enormes. Pouco depois, Nani, sempre Nani, voltou a colocar o topo do estádio em êxtase. Mais um golaço do nosso artista. Festa e muita cantoria, sorrisos e abraços... Era desta forma que íamos convivendo na bancada.

Os leões voltaram para o segundo tempo. "Vamos Sporting", "Nós acreditamos!". Sempre com muita personalidade, atitude e dinâmica, - com especial destaque para a dupla William/Adrien que jogou muito à bola - a equipa puxou pelos adeptos e os adeptos pela equipa. “Temos que fazer o terceiro para acabar com isto”, pensei. Passaram 10 minutos da segunda parte, penalty para o Porto. “O Patrício vai defender”, dizia eu para dentro... Estava confiante. Tão confiante, que fiz uma coisa que nunca tinha feito: virei-me de costas para o relvado. Observei as reações dos meus camaradas e quando recebi um abraço de um leão que tinha reparado na minha posição, quando ouvi a bancada a cantar pelo nome de Rui Patrício, sorri. Virei as costas porque sabia que, atrás de mim, estava um dos melhores guarda-redes da Europa e que seria capaz de nos salvar. O relógio avançou e o sonho ficava cada vez mais perto. Bom futebol, uma equipa muito organizada e a atacar com objetividade. Faltava o golo para matar o jogo. Foi quando, 10 minutos dos 90´, Carrillo deu o mote para que a festa começasse a rebentar pelas costuras. Tochada, petardos e um estrondoso "Já se vão embora!", fazia as delícias de todos nós. O Sporting acabava de vergar o Porto em pleno estádio do Dragão. Até ao apito final, houve festa da rija.

Os adeptos adversários, depois do golo, levantaram-se em debandada e o rugido do leão ficou cada vez mais forte. Vieram os "olés", o recado para Pinto da Costa e os agradecimentos de toda a estrutura leonina, aos quatro mil que ali estiveram a abafar tudo e todos. Foi já com o estádio vazio que o Presidente Bruno de Carvalho voltou a subir ao relvado, acompanhado por Augusto Inácio e Virgílio. Atravessaram o campo, colocaram a mão no coração e apontaram para nós, num claro sinal de agradecimento. Gesto esse que contagiou novamente a bancada.
Saímos do estádio e voltámos ao local da concentração leonina. Sempre em festa, sempre com cânticos e com muitos sorrisos. Existia em todos nós um sentimento especial porque tínhamos acabado de fazer história. Mais uma deslocação, mais um recorde de adeptos. Voltei para Leiria em festa. Cantei, sorri, com um orgulho incalculável. Parei em Coimbra para jantar, para beber umas cervejas e para saborear uma vitória muito especial da turma de Alvalade.

Tratei-me mal, festejei muito, mas cheguei a Leiria. Hoje, ainda estou a viver um pouco do que assisti ontem. Ainda tenho bem fresco na minha mente, a chegada dos autocarros, o estremecer das bancadas, a festa no Dragão, o golo do Nani, o momento do penalty e o agradecimento do Presidente. Tenho os sentimentos à flor da pele. O Sporting tem o dom de transformar estes momentos em algo mágico. Porque os outros sabem lá o que é pertencer à família do leão rampante. Eles sabem lá, o que é fazer parte de uma família que se move por amor e paixão em torno de um ideal. Sim, vocês sabem lá!