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No Mundo do Sr. Jerónimo

por 14 de Outubro de 2014Os textos do Damas0 Comentários

Todos nós gostamos de colecionar qualquer coisa. Sejam selos, fotografias ou garrafas. O certo é que, em nossas casas, encontramos uma coleção que traz sempre uma história mais pessoal. Para uns, é uma forma de reviver o passado. Para outros, é um hobby. Depois existem aquelas pessoas que o fazem por amor ou paixão. Penso que o caso do senhor Jerónimo se inclina mais para a última opção.

15he30 – Chegamos ao destino. À porta de casa, de avental verde com o símbolo do leão no peito e com um enorme sorriso, estava o senhor Jerónimo. “Entrem, entrem! Sejam bem-vindos!”- Foram as primeiras palavras do sócio 7580-0. Lá dentro, num pavilhão que foi propositadamente construído para o efeito, havia um amontoado de verde e branco demasiado grande para o primeiro impacto. Cachecóis, bandeiras, quadros, loiça, recortes de jornais, isqueiros, bonecos, chapéus, davam a cor ao espaço e o brilho aos olhos do senhor Jerónimo.

“Tudo isto começou há muito tempo.” – Diz-nos o próprio. É Sportinguista desde que nasceu mas recorda-se de que o trampolim para este fervor sportinguista aconteceu ainda no tempo da guerra de África. Em Moçambique, teve o primeiro contacto com Joaquim Agostinho. Como todos os rapazes da época, cumpriram o serviço militar no Ultramar. O senhor Jerónimo confessa que sempre gostou muito de futebol mas foram as “cavalgadas” do melhor ciclista de todos os tempos que o tornaram ainda mais Sportinguista.

No Sporting, muitos são os nomes que ainda hoje deixam saudades. Entre Vitor Damas, Peyroteo, Manuel Fernandes, Jordão, António Livramento, Vítor Correia, existem dois nomes que diz ser “do melhor que passou por Alvalade”: O peruano, Juan “El Loco” Seminário e o argentino Hector Yazalde. “O Seminário era tão bom que ficou menos de um ano no Sporting”, acrescenta. Em relação a “Chirola”, afirma ter sido um avançado ainda mais letal que Mário Jardel. Penso que isto quer dizer tudo.

Hoje em dia, tudo é diferente. João Moutinho foi como uma facada no coração e não fosse Cristiano Ronaldo, se calhar não encontrava nenhuma referência como no antigamente. Aliás, o melhor jogador também tem um espaço exclusivo neste mundo do senhor Jerónimo. Mais quadros, mais posters, mais recortes, pratos e autocolantes, de todos os feitos conquistados por CR7.

Foi pela mão do seu pai que entrou pela primeira vez no Estádio de Alvalade e lembra-se perfeitamente que o Sporting venceu esse jogo frente aos azuis do Restelo. Dessa primeira vez, há ainda uma recordação simbólica: O primeiro cachecol. Uma peça muito antiga e que foi o primeiro objecto daquilo que, presentemente, é um exemplo de dedicação e devoção ao Sporting.

Desde sempre foi presença assídua no estádio. Primeiro com a D. Maria, a sua esposa, e um dos seus dois filhos (sim, um nasceu com a cor errada). Relembra grandes dias em família: “Saíamos de casa, preparávamos qualquer coisa para o caminho e lá íamos nós atrás do Sporting. Depois passou a ser com um grupo de amigos aqui de Leiria. Eram seis ou sete. Saímos de manhã, aqui na minha Van, e percorríamos o país de norte a sul”, conta. Agora, quem o acompanha, é a sua neta mais velha, mas, se por algum acaso, não tiver companhia, continua a fazer 250 quilómetros sozinho para ver o seu clube do coração.

São mais de 70 anos e alguns euros gastos neste mundo do senhor Jerónimo. A dada altura da nossa conversa, pergunto: Então há quantos anos é sócio do Sporting, senhor Jerónimo? A resposta foi clara: “Há quase 50 anos. 43 anos, para ser mais preciso. E, nunca recebi o emblema de sócio de 25 anos”. “Isso provoca-lhe algum sentimento de mágoa?” questiono novamente. O seu encolher de ombros, foi automaticamente entendido como um sim. Penso que tenha sido por uma questão de respeito e educação que este assunto não se prolongou. Fiquei pesaroso, porque no rosto do senhor Jerónimo era notório que toquei num assunto delicado e que este, desde sempre, esperou que as sucessivas direções do Sporting Clube de Portugal se lembrassem. Confessou ainda que em tempos enviou uma carta ao jornal Sporting a convida-los para conhecer o seu mundo, carta essa que passou ao lado. Este foi o único lado negativo de uma entrevista que fascinou.

No mundo do senhor Jerónimo, existe uma paixão desmedida pelo Sporting Clube de Portugal. Uma paixão que se tornou a menina dos seus olhos, que funciona como uma espécie de companhia e onde vai todos os dias respirar um pouco deste ar que lhe alimenta a vida.
No fim, lembro-me perfeitamente de lhe ter dito: ” São adeptos como senhor Jerónimo que me fazem ter um orgulho incomensurável em ser do Sporting Clube de Portugal. Porque são pessoas assim que fazem do meu/nosso clube um dos maiores clubes do mundo”. Hoje, sem tirar nem por, voltava a dizer o mesmo. Foi mais uma lição de Sportinguismo que me entrou no corpo. Uma lição que me assaltou a alma e me deixou a pensar: Serei eu um dia capaz de ter um mundo como o do senhor Jerónimo?