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Outra questão de nervos

por 1 de Setembro de 2014À saída do estádio0 Comentários

A ideia era simples: disputar o jogo do início ao fim sem qualquer receio, terminar de vez com o enguiço e trazer de volta para Alvalade os três pontos da partida – de uma forma categórica e com à vontade tal que permitisse, de uma forma simbólica, arrecadar todos aqueles que ficaram por conquistar em épocas anteriores. Complicado? Sim. Impossível? Não. Todavia, a jogar fora, a missão tornava-se ainda mais difícil.

Bola cá bola lá, ao contrário daquilo que as palavras do Messias encarnado pretenderam fazer crer, de uma coisa Marco Silva não pode ser acusado: de não ter tido a ambição suficiente para triunfar. Ele foi Slimani de início, ele foi Capel para agitar no começo da segunda parte, ele foi Carlos Mané para ajudar quebrar a barreira. Definitivamente, o Sporting foi à casa do adversário com as necessárias cautelas, jogando, como é habitual, com apenas um ponta-de-lança, mas, sem qualquer dúvida, este Sporting foi à Luz para pegar no jogo e para ganhar.

Houve momentos menos bons? Sim. O golo do empate resultou de um verdadeiro brinde? Também. Mas, resumir a exibição leonina e os objectivos verde-e-branco a um golo oferecido – num lance quase comovente do guarda-redes Artur – é intelectualmente desonesto. Para os mais desatentos, ou os mais cépticos, só e apenas Super Slim, para além do tal golo do outro mundo, teve três oportunidades claras: aos 2’ (em conjunto com o irreconhecível Maurício), aos 29’ (isolado frente a Artur) e junto do minuto 90’ (quando foi travado pelo mesmo que durante 70’ foi aplaudido pelo adversário e assobiado pelos adeptos da casa).

Ao contrário do que os próprios encarnados se apressam em dizer, que se tratou de um jogo em que a uma equipa lhe valeu a sorte de enfrentar um guarda-redes a caminho de um esgotamento nervoso, a verdade é que se tratou de uma outra questão de nervos: a de uma equipa e um treinador nervosos perante um adversário que, sabiam bem, lhes daria água pela barba. E, a verdade é esta: apesar das duas vitórias no início da temporada, a jogar em casa, este Benfica olhou este Sporting de uma forma diferente, de baixo para cima e com o respeito e a reverência de quem sabe que pode deixar o relvado vergado pelo peso de um coro de mais de 60 mil nas bancadas.

Salvo qualquer erro de interpretação, mesmo com um Nani sem qualquer ponta de explosão (e ainda assim com tempo para um túnel digno de registo a Maxi Pereira); com um Carrillo agitador, mas amarrado pelo cartão amarelo; e com um André Martins relativamente perdido (e a fazer o meio-campo reclamar por algo mais incisivo do que uma mão cheia de intenções), a equipa lá foi levando a água ao seu moinho, com um à vontade diferente do que antes fora visto.

Rui Patrício foi chamado a intervir? Claro, e é para isso que lá está, para aqueles 10 minutos de desconcentração em que é mais coração e do que cabeça e em que as tácticas passam para segundo plano.

À partida para o jogo, haveria três matérias que nos poderiam desassossegar, mas que acabaram por não ser decisivas: a lesão de Cédric Soares; as queixas musculares de Adrien; e a ainda débil cumplicidade entre os defesas centrais.

Por um lado, a aparente ingenuidade de Ricardo Esgaio frente aos dois extremos que teria pela frente acabou por não ser determinante. Ainda que sem espaço para grandes aventuras, o miúdo soube jogar simples, tabelar curto, com qualidade e, mesmo com algumas bolas nas costas por cortar, não deixou para outros o trabalho que por ele teria de ser feito. Colocado à prova, nunca virou a cara à luta, mostrando que, mesmo não sendo o elemento ideal para a posição, é mais um artista na arte do desenrasca.

Já Adrien – o tal que, agora, após o desastre do Brasil, já serve para a selecção de Paulo Bento –, se sofria de problemas, não o deixou transparecer, voltando a provar porque é que, desde há alguns meses, tem lugar cativo como o médio criativo do reino do leão. Juntamente com William e André Martins, ainda que este em menor evidência, Adrien lá foi metendo o meio-campo encarnado no bolso, levando o magnata Peter Lim a questionar: «Quem é aquele russo com ar de emigra e porque é que só me mostram os vídeos dos sul-americanos?».

E Sarr? Ficou perto do golo e foi o esteio que se espera. Ainda não é «O» patrão, mas não inventa. Não arrisca nas subidas e não tem a técnica de Marcos Rojo, mas também não se deixa apanhar de surpresa nem parece ter o sangue quente e a volatilidade do argentino. É gigante? Sim. É um cepo? Muito longe disso. Talisca bem tentou sacar-lhe o amarelo, mas a forma como impõe o físico, à imagem de William, é qualquer coisa.

Em suma, este Sporting mexe e ainda pode mexer muito mais. Fica o amargo de boca por uma vitória que podia e deveria ter acontecido, mas fica também a ideia de que Marco Silva, podendo ter arriscado um pouco mais, teria sempre o reverso da medalha. Para um primeiro embate, e porque a Liga ainda vai no início, já não foi mau sair da Luz com a certeza  de que, durante os 90’, houve uma equipa que se mostrou sempre, e inevitavelmente, mais receosa. E essa equipa não foi o Sporting Clube de Portugal.