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Do céu ao inferno, no regresso à casa de partida

por 24 de Agosto de 2014À saída do estádio0 Comentários

Ora aí está um filme repetido até à exaustão e a que os rapazes de verde e branco teimam em não deixar cair em desuso. Em Alvalade, a equipa da casa não deslumbra, mas é melhor; cria oportunidades suficientes para se colocar numa posição mais do que confortável, mas falha na concretização; e prolonga o clima de suspense em torno do resultado até à última, deixando 40 mil a esperar e a exasperar perante rectas finais em que já só conta o coração. E, ontem, foi mesmo para quem o teve.

Se, no ano passado, no arranque da Liga, o Arouca saiu de Alvalade cilindrado por uns expressivos 5-1 – lembram-se do hat-trick de Fredy Montero? –, num verdadeiro clima de euforia após uma época desastrosa, desta vez, em ambiente de festa, no primeiro desafio em casa, empolado pelo factor Nani, a equipa não soube lidar com as expectativas, e quase fez esvaziar todo o balão criado com o regresso a casa de um dos filhos da academia.

Na verdade, com mais vontade do que articulação, os onze escalados por Marco Silva lá foram tentando derrubar o muro colocado em frente à baliza de Goicoechea. Antes dos 10 minutos, Montero ainda fez levantar as bancadas – ou parte delas, tendo em conta que alguns adeptos, a maioria afectos às claques, ficaram retidos até perto dos 25 minutos de jogo por avaria de alguns sistemas electrónicos dos torniquetes –, Nani foi deliciando os milhares com pormenores apenas ao alcance de alguns e Adrien, sempre ele o mais esclarecido, lá foi pautando o jogo com a qualidade do costume, mas, ao intervalo, mesmo com 45 minutos para jogar, a sensação que pairava em Alvalade era a de que havia qualquer coisa que estava a falhar e de que, mesmo perante um Arouca sem armas à altura, o jogo ainda não estava resolvido e a exibição dos rapazes de Marco Silva, mesmo com um tal de Nani, não chegava sequer para ser convincente, e a substituição de Rosell ao intervalo é disso exemplo.

Em particular na segunda parte, não há como negá-lo, Nani esteve mesmo no centro das atenções. Desde o início da semana passada, e até ontem, o português foi do inferno ao céu, terminando com uma descida à terra. De herói a vilão, em poucos segundos, o médio conseguiu rebentar com toda a ‘Nanimania’.

Minuto 62’, grande penalidade. À semelhança do que tem acontecido, Adrien apresenta-se ao serviço, mas é interpelado pelo tal rapaz que está de regresso a Alvalade. O habitual marcador – e que, diga-se, até tem cumprido –, cede perante o pedido. Nas bancadas, o burburinho antecipa um filme já visto. Na relva, ao contrário do que é costume, o 77 não ferra a língua contra a bochecha, no tal aparente sinal de concentração que lhe é característico. Parece nervoso e está até ofegante. Passo apressado, paradinha e … silêncio ensurdecedor em Alvalade. O resto, já se sabe. Aplausos, assobios, incentivos, impropérios, pedidos de substituição e até pedidos de demissão. Nada a que o público de Alvalade não esteja já habituado.

Mas, se nos minutos seguintes a maioria acabou por concordar que a ânsia de fazer bem e o gosto pelo risco do ex-Manchester United acabaram por prevalecer, o caldo voltou a entornar-se aquando da substituição do recém-regressado. Um quarto de hora para o fim e a placa mostra o 77. Visivelmente abalado, e com o resultado a zeros, Nani recolhe ao banco a passo. As palmas dão lugar a alguns assobios e a garantia de qualidade é toldada pelo aparente vedetismo. Nani volta ao banco, cumprimenta os companheiros e senta-se no lugar mais distante, visivelmente consternado. Não foi feliz no regresso, mas, ao contrário do que já se previa, a exibição e o episódio Nani não eram a crónica de uma morte anunciada.

Jogo atabalhoado; muita fé; cruzamentos por alto para um Montero isolado entre os centrais; cruzamentos rasteiros de Esgaio a colocar em questão a utilização do substituto de Cédric; tentativas de furar, pelo centro, um amontoado de jogadores de amarelo; tudo lá para a frente com as incursões empolgantes de Capel e, quando já poucos acreditavam – mesmo quando das bancadas se ouvia um «nós acreditamos em vocês» – Carlos Mané, o mais recente herói da academia, promovido ontem a herói improvável, devolve a Alvalade o justíssimo ambiente de festa vivido nos momentos imediatamente anteriores à grande penalidade.

Emoção? Sim. Sofrimento? Bastante. Justiça? Foi feita. Vitória? Claro. Estamos aí, na luta, com caras novas, mas também com velhos hábitos. A semana foi atípica e o jogo frente ao Arouca não pode ser usado como barómetro para nada. Afinal, cada jogo em Alvalade é diferente do anterior, e isso é mesmo algo a que já todos nos habituámos. Agora, que venha a Luz, porque vamos lá mostrar-lhes que de céus infernos percebemos nós!