Dois Olhares sobre os Jovens

por 9 de Maio de 2014Os textos do Damas0 Comentários

O Sporting Clube de Portugal, pelo passado frutífero mas também pela capacidade que, no presente, tem de fazer cumprir etapas e processos de evolução, é um verdadeiro exemplo no que toca à formação de futebolistas. Em primeiro lugar, o lote de elementos que fizeram em Alvalade, e depois em Alcochete toda ou parte da sua formação é tal, que o respeito que o Sporting granjeia atravessa fronteiras, estabelecendo-se como uma das melhores escolas de formação do Mundo. Depois, a capacidade que hoje apresenta, através da ligação estreita e cúmplice entre a equipa principal e secundária, o que permite a evolução dos atletas mais jovens, tem sido um caso de estudo, pela competitividade que vem apresentando.

Mas há duas visões muito distintas do que devem ser os escalões de formação de um emblema da dimensão do Sporting. Em primeiro lugar, está uma muito em voga, principalmente no nosso país, que passa pela conquista de títulos. Para uma parte do espetro que pensa o futebol em Portugal, o amealhar de vitórias, de forma constante, é importante para a evolução do atleta, para que chegue ao futebol profissional já com uma cultura de vitória muito vincada.

Depois, há aqueles que proclamam que as vitórias são um dado relativo, contando sim a evolução do jovem futebolista como um elemento que terá de ter sempre em conta o que poderá advir ao seu futuro. Por outras palavras, a estrutura organiza-se de cima para baixo, da equipa profissional para os escalões de formação. Assim, os jovens são “controlados” por uma cartilha que preconiza os ideais futebolísticos da equipa principal, e do seu treinador, para que, quando aí chegados, a adaptação seja apenas um processo natural.

Olhando para o Sporting Clube de Portugal, apenas podemos defender um modelo híbrido. A união destas duas visões é a opção natural por razões que passo a explicar. Sim, a cultura de vitórias é muito importante para a evolução do atleta. Porém, a sua busca obsessiva pode acabar por limitar o jogador em certos aspetos que, quando chegado a um ponto em que terá de explodir futebolisticamente, e não o consiga, poderá revelar-se o seu total contrário, envolvendo-o numa espiral negativa da qual muito dificilmente sairá.

A ideia da cartilha até poderá ser a que tem maiores adeptos. Ainda assim, convém ter em conta outros fatores. O Sporting compete num patamar algo longe do que mais competitivo se vê atualmente. Assim, os bons valores que aí despontam são mais apetecíveis para esses emblemas mais fortes, tanto devido ao maior poderio financeiro bem como o futuro com que poderão acenar a esses jogadores. Por outro lado, a criação de uma cartilha implica a presença de um treinador de imagem forte e carismática que, tendo sucesso, acaba, pela mesma razão que os futebolistas, por ser cobiçado por outros clubes.

Assim, é preciso dar pequenos passos. É sempre importante ganhar nos escalões de formação, mas isso não se pode tornar obsessivo. O que deve ser mais trabalhado é a ligação entre equipas, conferindo maiores e melhores soluções aos responsáveis técnicos, assim como contribuindo para a evolução futebolística dos jovens.

A dimensão e algumas opções diretivas de alguns emblemas do nosso país não permite a aplicação da segunda corrente, optando-se por uma cega luta pelas vitórias, que pouco ou nada acaba por ajudar a equipa principal, eternizando-se jovens jogadores interessantes em equipas que já nada contribuem para a sua evolução.

No Sporting o caminho terá de ser pela exigência, mas também pela criação de condições motivacionais, para que esta temporada tenha sido a primeira de muitas no que ao aproveitamento de jovens valores diz respeito.
Sporting não de Lisboa, mas de Portugal