• 185342_galeria_sporting_v_sc_braga_j21_liga_zon_sagres_2013_14.jpg
  • 185312_galeria_sporting_v_sc_braga_j21_liga_zon_sagres_2013_14.jpg
  • william

O monumento e a reviravolta monumental

por 2 de Março de 2014À saída do estádio0 Comentários

É o destino. Mais uma ida a Alvalade, para ver a turma de Jardim arrancar uma vitória a ferros frente ao Braga, em mais um início de noite para sentir de perto mais uma reviravolta digna de afrontar os mais débeis corações leoninos.

Ponto 1: a equipa entrou bem, no início de ambas as partes; deixando de lado as estatísticas mais concretas, não houve quem não notasse que, sem grandes dificuldades, o Sporting dominou o jogo a seu belo prazer, criando ocasiões de perigo com facilidade e com o mesmo desembaraço com que as foi desperdiçando. Passo por alguns sites e leio que «O Sporting venceu um jogo em que durante muito tempo não conseguiu respirar.» Erro, ataque pessoal? Simplesmente uma crónica que, claramente, terá sido escrita por um apreciador de golfe, patinagem artística ou bilhar de bolso. Mas, bom, voltemos ao que interessa.

Aos 15 minutos de jogo, os visitantes pareciam incrédulos com o caudal ofensivo dos leões. Ainda que sem grande genialidade, a equipa lá ia empolgando as bancadas, mesmo que «a pilha» não tivesse durado tanto quanto o desejado. No final da primeira parte, por duas vezes, Slimani lá tentou novamente furar as malhas da baliza de Eduardo – o tal que ousou, durante 90 minutos, reduzir o tempo útil de jogo ao mínimo possível, mas a bola só entrou na segunda parte, com a confiança de Jefferson e o remate de raiva por parte do argelino. A taquicardia leonina podia ter sido evitada, mas, como é normal dizer-se, tratam-se de vitórias que sabem a suor, a samba e à religião que é o futebol, com beijos na relva e abraços a desconhecidos em qualquer ponto da bancada.

Ponto 2: o jogo foi desequilibrado, já que, em grande parte do tempo, o Sporting viu-se privado de duas unidades, por via de um sub-rendimento inadmissível. André Carrillo foi mais uma vez displicente, quer nas acções defensivas quer nas ofensivas e, sem qualquer explicação, só melhorou nos últimos minutos da primeira parte, depois de olhar para o lado e reparar que, do lado de lá da linha, Capel e Heldon já aqueciam para ocupar a posição. «Mau de mais para ser verdade», suspirava-se na bancada verde-e-branca, porque o miúdo – que já vai tendo tempo de o deixar de ser – teima em não querer ser grande, qual efeito Peter Pan. O apoio continua, tal como a atitude do peruano, que continua a levar os adeptos ao desespero, até ao dia que o apoio vai desaparecer e que o vão querer enviar para a Terra do Nunca.

Uma exibição lamentável e que foi acompanhada de perto por Gérson Magrão. Aquela que foi talvez a transferência mais a incompreensível da era Jardim é, de modo objectivo, a pior compra de Jardim. Magrão não é jogador para este clube. Pode ter sido, noutra vida. Mas hoje, em 2014, Magrão parece apenas cansado, perdido tacticamente e receoso de que quem olha para o jogo com olhos de ver descubra tais lacunas. A verdade é que todos o perceberam desde que pisou a relva de Alvalade e, para que isso deixe de pairar sobre as mentes leoninas, seria preciso muito, mas muito mais do que meia dúzia de corridas e passes laterais na tentativa de não complicar.

Falem-me de Mané, falem-me de Dier, falem-me da formação. Casos como Gérson são dez passos atrás no processo evolutivo desta instituição

Carlos Mané. Sporting 2-1 Braga. 1 mar 2014. Foto: zerozero.pt
Ponto 3: confiança. Apesar da dificuldade em conseguir uma série de vitórias esclarecedoras e por números mais confortáveis, a equipa dá aos adeptos algo que há algum tempo não se vislumbrava em Alvalade: a certeza de que, com mais ou menos dificuldade, mais tarde ou mais cedo, a bola vai mesmo entrar, para enfiar os críticos no bolso e meter Alvalade inteiro a cantar. Em tempo de intervalo, a pergunta: «Estás confiante?». «Claro que estou», respondi. E, a verdade é que estava. Com a esperança que Jardim mexesse mais cedo na equipa do que o fez, mas com a certeza de que, nem o Braga merecia sair de Alvalade com o rei na barriga, nem o Sporting sairia curvado perante os 20 adeptos do tal «quarto grande» de Portugal.

Ponto 4: se dúvidas houve – vá-se lá perceber porquê – os leões voltaram a dar uma lição de grandeza aos arsenalistas. Mais de 30 mil nas bancadas para mostrar aos encarnados de Braga que isso de ser grande não é para quem quer, é para quem pode, e que não basta Alan e mais 10. Lembram-se da visita de António Salvador ao Museu do Sporting, justificada com a necessidade de mostrar ao Braga a «dimensão desportiva do Sporting ao longo da sua história»? Pois bem, ontem o Braga voltou a visitar Alvalade, reforçando a ideia de que, para colocar o olho em troféus, terá de voltar a receber um convite, mas desta vez por parte de Bruno de Carvalho.

Um monumento para o miúdo que é já um homem

Jogo enorme; grande tranquilidade; uma mão cheia de pormenores; e um mundo inteiro à espreita. Que não haja equívocos. Não é o novo Yaya Touré do Man City, nem o próximo Patrick Vieira do Arsenal. É o nosso W-I-L-L-I-A-M. Perdido por algumas direcções leoninas, recuperado por Jardim e Bruno de Carvalho. Um jogado do presente e para o futuro, que carrega a equipa quando é preciso e que lhe oferece detalhes de qualidade inigualáveis. A Europa está louca com o miúdo, que não se deixa levar por conversas e questões que lhe são atiradas como cascas de banana. «Tenho lido mas essas coisas passam-me ao lado. Gosto de receber elogios, é bom ter grandes clubes europeus atrás de mim mas estou focado no Sporting. Sinto-me feliz aqui», responde William que não se deixa escorregar. Uma felicidade que transpareceu em mais um jogo enorme que realizou frente a um meio-campo bracarense – que, pasmem-se, apesar do 7.º lugar, acaba por ser mais convincente para Paulo Bento do que o próprio meio-campo leonino.

Carlos Martins, Paulo Machado, Ruben Micael, Ruben Amorim, Josué, Ivan Cavaleiro, André Gomes? Se Ruben Micael era uma «certeza» ou «confirmação», então deixem-se de tretas, William Carvalho é claramente o médio-centro mais completo do futebol português dos últimos 10 anos.