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Catch us if you can

por 31 de Março de 2014À saída do estádio, Os textos do Damas0 Comentários

Deixámos a poeira assentar. Depois da vitória sobre o Guimarães, esperámos para ver e, dentro do que era previsível, as contas foram mais ou menos as esperadas. No Minho, no estádio com nome de seguradora, as ausências fizeram-se notar e, não fosse a onda de azar no lote de disponíveis, era ver toda uma confiança desmedida no título ser adiada por mais uma época. Na Madeira, a luta pela Liga Europa resultou em incidentes. De ponto perdido em ponto perdido, lá se vão notando as falhas da tal “estrutura” e da tal “organização modelo” do futebol em Portugal.

A ‘calimerização’ sempre existiu, mas tem estado adormecida. O seu a seu dono, digo eu, já que, por estes lados, quem veste de verde e branco sempre teve a certeza de que a alcunha de calimero nunca foi bem empregue. A construção de documentos, a criação de movimentos e os murros na mesa sempre tiveram a sua razão de ser: são consequência da falta de paciência perante a passividade de quem teima em não fazer o seu trabalho, distorcendo tudo aquilo a que se chama futebol. Chamem-nos incendiários e populistas. Chamem-nos isso e muito mais. Basta um clique no youtube para perceber que, durante várias décadas, foi preciso andar a correr atrás do prejuízo para fazer frente aos que correram e fizeram autênticas perseguições aos homens do apito em pleno relvado. Agora, oito pontos depois – e, previsivelmente, antes de mais duas ou três queixas contra o clube e Bruno de Carvalho – é uma espécie de “catch us if you can”.

Quanto ao futebol jogado, dentro das quatro linhas, teve um fim-de-semana para esquecer. Três pontos são três pontos, Leonardo, mas já todos vimos este Sporting jogar melhor. Para vencer, bem sabemos, não é preciso jogar melhor, mas, desta jornada, fica muito mais a recordação de três pontos arrancados a ferros do que de uma demonstração de capacidade e domínio em Alvalade.

Do lado bom da força, registo para a combatividade, a união, o espírito de equipa, a entrega e a perfeita noção colectiva de que «é possível». Houvesse uma Liga dos Campeões para disputar e, com dois ou três momentos de inspiração, uma ponta de sorte e arbitragens rigorosas – por parte de alguns «queridos» -, e, no próximo dia 24 de maio, este Sporting faria a festa junto do centro comercial preferido do árbitro Pedro Proença.

Do lado negro da força, há um nome que continua na ponta da língua de muitos sportinguistas. Não se trata de crucificar ninguém, mas a verdade é que Heldon demora a justificar a aposta, ainda para mais quando o técnico leonino insiste no ex-Marítimo como primeira opção. A velocidade ainda não está comprovada, o toque de bola é algo débil e os cruzamentos ainda não passam de tentativas. Capel, Carrilo e Wilson são claramente melhores? É difícil dizer. Capel foi afastado quando justificava a titularidade e, desde aí, a chama nunca mais foi a mesma; Carrilo continua a sofrer da inconsistência quase voluntária; e Wilson Eduardo, mesmo com dose extra de esforço e dedicação, parece sempre pouco entusiasta das suas próprias acções, como se passar ao lado de um jogo fosse muito mais um alívio do que uma motivo de preocupação.

Mais de 24 horas depois do 1-0, folheados os jornais e ouvidos os comentadores, ficam algumas notas. Mais uma vez, o onze apresentado por Jardim deixa algumas dúvidas e, claramente, não é o melhor da época; Fredy Montero continua a ver a seca de golos prolongada graças a um erro de arbitragem; mereciam ou não, Adrien e Slimani, a ordem de expulsão?

Comecemos pela última. Aqui a resposta fica num claro “talvez”. Talvez Adrien merecesse o vermelho. Quanto a Slimani, é muito duvidoso. Ainda que simulando por duas vezes um eventual contacto, expulsar o argelino por tais motivos seria quase inédito no futebol português. Sem querer entrar em comparações, elas são inevitáveis. André Santos viu o primeiro amarelo depois de 45 minutos em que, ao contrário do que foi a marca deixada em Alvalade, fez da combatividade e agressividade a sua maior arma. Mané foi a principal vítima, mas só ao minuto 44, frente a William – e quatro ou cinco faltas depois -, é que o ex-leão acabou por ser amarelado.

Quanto a Montero… está visto. Terá de continuar a batalhar. Mais 10 golos até final do campeonato e, na melhor das hipóteses, terá 5 para mostrar no CV. Serve o golo para que o colombiano regresse à titularidade. Pode não chegar, mas também será difícil justificar a ausência quando a frente de ataque continua a mostrar algumas dificuldades. Mais do que a falta de oportunidades – que até foram em número razoável -, a equipa mostrou uma falta de critério gritante na hora de decidir se cruza, se remata, se dá mais um toque… Foram muitos os lances de perigo que acabaram com balões para a área e cruzamentos dignos de técnicas de adivinhação. Foi pelas alas que lá chegámos, mas foi também por aí que mais desperdiçámos.

Nota final para os discursos já habituais de quem nos defronta e pretende fazer do leão feroz um felino domesticado. No final da primeira volta, à saída do relvado, Rui Vitória lamentava: «É ingrato. Fizemos uma partida muito competente, em nada fomos inferiores ao Sporting». No final do segundo confronto, o discurso não foi diferente: «Fizemos que tínhamos de fazer em Alvalade. Na primeira parte não houve um ascendente de uma equipa sobre a outra.» É engraçado, até porque em outros jogos contra os grandes, Rui Vitória limitou-se a expressar tristeza pelo resultado ou sublinhar não ter visto lances que prejudicaram o Vitória. No fundo, vencer em Alvalade não é, nem nunca foi, fácil, e esta época veio provar que em casa, com mais ou menos qualidade, mandamos nós. Se dúvidas houver, é fazer novas visitas guiadas ao museu, abertas aos presidentes de todos os clubes, para que desçam à terra, retornem à realidade e olhem lá para cima, onde está escrito Sporting Clube de Portugal.

O Sporting somos nós.