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Até sempre!

por 5 de Janeiro de 2014Os textos do Damas0 Comentários

Os últimos tempos foram deveras atribulados. É a idade que finta o corpo mutilado pelas defesas adversárias, é o coração que vai perdendo a pujança de outrora e é o emblema da águia que teima em não conseguir dar ao Pantera Negra as alegrias que o próprio construiu e ofereceu aos benfiquistas no tempo devido.

Hoje, depois de alguns sustos, Eusébio partiu e deixou saudade a todos os que, ao vivo, na TV ou por via da tradição oral, se cruzaram com aquele que foi por duas vezes Bota de Ouro e por sete vezes melhor marcador do campeonato nacional.

É um dia de pesar. Muito já foi dito e escrito sobre a história e o significado da existência de Eusébio da Silva Ferreira. Mas, para além do que se disse após a morte daquele que é considerado o maior artista da bola de todos os tempos, muito fica ainda por dizer, inclusive sobre as palavras do próprio ainda em vida. E, porque este é um blogue de sportinguistas e para sportinguistas, para além das óbvias condolências endereçadas a toda a família, cabe-nos a nós lembrar também alguns dos momentos menos felizes e que marcaram a recta final da vida de Eusébio.

Sporting, o «clube dos racistas»

Racistas existiram e existem em todo o lado. Na rua, na escola, no local de trabalho. Eusébio, ao invés de apontar o dedo aos homens que o fizeram sentir na pele o segregacionismo cego e sem sentido, preferiu apontar baterias aquele que é, ainda hoje, o clube mais eclético e que mais títulos deu ao desporto nacional: «Não gosto do Sporting. No meu bairro, era um clube de elite, da polícia, que não gostava das pessoas de cor, era racista». Se houve quem, durante a época do Sporting Clube de Lourenço Marques, foi incorrecto para com Eusébio, também o Pantera foi incorrecto para com os sócios e simpatizantes do Sporting Clube de Portugal. Eusébio poderia ter desmentido a entrevista de então, corrigido os factos ou salientado que se tratavam de afirmações não dirigidas ao Sporting Clube de Portugal.

Não o fez.

Se, por um lado, Eusébio sempre se quis distanciar das estórias que contam o rapto do Pantera por parte de dirigentes benfiquistas na chegada a Portugal – onde era esperado para assinar pelos leões –, foram também notórias a tentativas de Eusébio de desvalorizar a importância do Sporting enquanto escola e enquanto espaço de crescimento para muitos jovens que, ainda hoje, como ele, procuraram na casa verde e branca um abrigo e uma oportunidade.

«Eu nem do Sporting de lá gosto, quanto mais do de cá»

Outra frase que ficou gravada na memória de muitos sportinguistas. Nos últimos tempos, Eusébio sofreu de um problema que assola alguns dos mais respeitados nomes da nação: as aves de rapina que pontuam no jornalismo. Já ninguém quer saber das consequências da entrevista ou das capacidades e idade de quem é entrevistado, pois tudo serve para vender sangue.

É verdade que Eusébio sempre foi mais hábil com os pés do que com as palavras, mas, enquanto rei e símbolo nacional, o Pantera meteu algumas vezes a pata na poça. Voltemos à entrevista de Novembro de 2011, à revista “Única”. Ter-lhe-ia sido mais favorável mitigar aquilo que se entende mais por facciosismo do que por rivalidade, mas Eusébio preferiu continuar a regar a fogueira com gasolina. Ainda que o clube do coração fosse outro, pelo qual venceu inúmeros jogos nacionais e internacionais, foi de verde e branco que cresceu e foi também com as duras batalhas frente aos de verde e branco que atingiu um alto patamar de competitividade.

Rei é rei

«É um erro. Não há comparação. Eu joguei 60 jogos e marquei aqueles golos. Só agora, depois de tantos anos, outro vai marcando. Agora é mais fácil jogar com as outras equipas. Eu nunca joguei com Liechtenstein, nunca joguei com o Azerbaijão. É triste. Fico triste, porque não se pode fazer essa comparação», disse Eusébio depois de Cristiano Ronaldo ter batido o recorde do Pantera Negra nos golos pela selecção nacional.

Ainda que idolatrado – e bem – por grande parte dos portugueses, o que, por si só, lhe valeria o estatuto de intocável, sempre quis ser rei. Como se tal pudesse ser possível, Eusébio sempre fez questão de nunca ser esquecido. A luta – inexistente – com Ronaldo é a prova de que os recordes batidos pelo português sempre deixaram Eusébio desconfortável. Um jovem prodígio, com origens num clube rival e que Eusébio sempre considerou «elitista» não deixaram margem para que o Pantera pudesse, sem rodeios, classificar Ronaldo como o fenómeno que é na realidade.

O miúdo, esse, sempre respondeu à altura de quem preferiu não o fazer: «Não vale a pena entrar por esses caminhos, acho que os recordes têm que ser batidos. Não há que ficar triste, ele que fique tranquilo, porque o Eusébio será sempre o Eusébio, como o Cristiano será sempre o Cristiano. É normal que se façam comparações, mas ele que não fique triste, porque continua a estar lá em cima».

«Ele continua a estar lá em cima»,sublinhou Ronaldo, depois de ver desvalorizada pelo rei a marca em jogos ao serviço da selecção.

Não sei se é Ronaldo ou se é Eusébio. Ao Pantera Negra ninguém lhe tira o título de rei e, na memória de todos, independentemente das clubites, ficará a imagem das lágrimas que percorreram o rosto da Pantera em pleno relvado, enquanto levava no peito as quinas nacionais. Ronaldo ainda está aí para o que der e vier. Eusébio foi, porventura, o melhor de todos, mas, por muito que lhe tenha custado, não foi único nem o primeiro grande jogador português a ser reconhecido além-fronteiras.

José Travassos, por exemplo, que, pelo que fez dentro deste rectângulo luso, pulou para a selecção europeia, ficando internacionalmente conhecido como o “Zé da Europa”, nunca viu o mérito reconhecido.

Por agora, não se trata de um ajuste de contas com alguém que, por diversas vezes, não soube estar à altura do estatuto de rei, trata-se de recordar um dos grandes à altura das suas responsabilidades.

Até sempre, Eusébio! Que descanses em paz e que o teu exemplo de dedicação e glória sirva de motivação para todos os que te seguem os passos.