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A festa

por 29 de Janeiro de 2014Os textos do Damas0 Comentários

Ainda me lembro como se fosse ontem. Aquele tão esperado dia 14 de Maio de 2000 em que me juntei com toda a malta sportinguista cá da terra (e não são assim tão poucos) e fomos todos para o “tasco”, com pré-marcação cheia de antecedência e intenção, para ver o Sporting campeão.

Nunca o tinha visto sem ser por memórias passadas do futebol anteriores à minha existência. Desde que me lembro que existo que esperava este dia. O Sporting aspirava ao título nacional há 18 anos e eu tinha menos que isso.Agarrámos nos cachecóis, nas bandeiras e em  tudo o que fosse verde porque sabíamos que ia ser necessário antes e durante o jogo e consequentemente para a festa posterior à vitória.

Sim, um resultado que não a vitória funcionaria na perfeição caso o Porto não se portasse bem no campo do Gil Vicente mas quem sofre como Leão não pode pensar em equações complicadas quando uma soma simples de 3 pontos chega para o resto.Queremos ganhar ao Salgueiros. Vamos ganhar ao Salgueiros.

Embora os anfitriões do estádio Engº Vidal Pinheiro tivessem alguns nomes sonantes como o Panduru (que jogou na parte final do jogo) e Micklos Fehér a obrigação era olhar em frente e confiar no nosso jogo demolidor. "Beto Acosta és o nosso matador" cantava-se há meses e mais matador foi considerado quando marcou um dos 2 golos ao Porto a meio do campeonato que fez o Sporting agarrar o tão ambicionado lugar numa altura em que podia tudo acontecer. Golo esse após uma assistência a roçar a perfeição de... Secretário. O outro golo foi de livre mas não deixo pistas para descobrirem quem foi pois todos se lembram do André Cruz. O homem parecia que treinava com piñatas agarradas à barra das balizas e o objectivo era rebentá-las. Chegava a casa no fim do dia cheio de doces. Uma visão minha um tanto ou quanto fantasista mas há que arranjar superlativos ao famoso defesa central que acaba quase todos os livres directos com a bola na "gaveta".

Siga o Salgueiros. Não temos o Beto mas temos o Quiroga. O homem é convocado para a selecção argentina, moral não falta. O Papa veio a Portugal novamente e a última vez que cá tinha estado o Sporting tinha sido campeão. O Augusto Inácio voltou ao Sporting depois da última vez que cá esteve, e também tinha sido campeão. O Peter Schmeichel, quando chegou ao Manchester, foi logo campeão e depois daquela inesquecível final da Champions de 98/99 (o United deu a volta nos últimos minutos frente ao Bayern de Munique) assinou pelo Sporting. Se superstição fizesse parte de mim não tinha tantos nervos neste dia. Saberia à partida o desfecho.

Embora os bilhetes para "os de fora" chegassem aos 100 euros (20 contos, um roubo diziam os adeptos) o apoio não se cortou e no pequeno estádio ficaram 4500 pessoas. O falecido José Linhares disse "se eu o posso fazer, dada a importância do jogo..." quem sou eu para censurar. O que é certo é que o Salgueiros também estava aflito e dependia do resultado do jogo e/ou combinações com outros resultados para se safar.

Apita Jorge Coroado para o início da última batalha:

Sporting sem surpresas face aos escolhidos durante a época, sempre:

Peter Schmeichel

Facundo Quiroga

Abdelilah Saber

Rui Jorge

André Cruz

Aldo Duscher

Pedro Barbosa (substituido porBino aos 81')

Luís Vidigal

Ivone De Franceschi (substituído porMbo Mpenza aos 66')

Beto Acosta

Kwame Ayew (substituído porToñito aos 73')

Suplentes: Nélson Pereira e Edmilson (na altura só se podia ter 5 suplentes por jogo)

Depois de uma primeira parte terminada a zeros salienta-se um Sporting mais ofensivo embora o Salgueiros tivesse uma grande oportunidade para marcar depois de Schmeichel ter perdido a bola fora da grande área. Alguns nervos mas nem tudo é mau. O Gil Vicente ganhava ao Porto ao intervalo por 1-0.

Na 2ª parte tudo foi melhor. Os adeptos ficaram menos nervosos quando um tiro de sniper de livre do André Cruz pela esquerda ao ângulo contrário da baliza quase causou um terramoto no país. Somamos mais um do Ayew, ainda assistimos a uma defesa à andebol do gigante dinamarquês a um cabeceamento quase fatal do Fehér. "Grande defesa" pensei eu, nunca tinha visto tal coisa (A sério... não foi a palavra "grande" que utilizei). Para descansar os ânimos Duscher marcou o terceiro e mais um de livre traiçoeiro do André acabou com quaisquer dúvidas. Fechámos as contas. No outro estádio o Drulovic ainda empatou para o Porto mas o Gil Vicente acabou por ganhar por 2-1. Acabou assim o campeonato. Com certezas de campeão. E até o Salgueiros lá se safou da descida.

"- Ainda me lembro, quando regressámos da vitória com o Salgueiros, tínhamos jogado com eles e chegámos a Alvalade a meio da noite. Estavam 60 mil pessoas à nossa espera no estádio e deveríamos ser apresentados no meio do campo. Pela ordem dos números eu fui o primeiro a sair, portanto... estavam todos felizes, saiu o seguinte, as pessoas ficaram impacientes e começaram a invadir o campo. Não sei se se lembram disso. Tivemos de fugir por segurança (risos) e acabámos por ir parar aos balneários, onde ficámos uma hora e meia a comemorar a vitória no campeonato. Não havia água, nem cerveja, nem champanhe." (Peter Schmeichel - 2012)

Perguntam-me porque sempre torci pelo Sporting se nunca tinha sido marcado pela festa do título. Em algum outro local do mundo nunca teria sabido tão bem como soube naquele dia. Festa até não dar mais, abanámos os carros que passavam sem saber de que clube é que eram e todos respondiam com a simpatia das buzinas coordenada por alguns quilómetros de fila. Esta é a nossa festa.

Conseguimos condições há 14 anos e fomos campeões. Festejámos novamente 2 anos depois. Essas condições criam-se com Trabalho, Esforço, Dedicação. A Glória surge naturalmente e embora não possamos sobrevalorizar o destino final para esta época podemos sempre acreditar. É o Fado do 12º jogador.

Ah! E sobre aquela festa de 1999/2000, quero isso todos os anos!