Benfica-4-3-Sporting

O crime compensa. O dérbi em duas partes.

por 11 de Novembro de 2013À saída do estádio, Os textos do Damas0 Comentários

Antes de mais, uma declaração de intenções: os de verde e branco saíram derrotados nos números mas não na alma e, mesmo vencidos, foram alvo de rasgados elogios vindos de todas as direcções; os de encarnado, voltou a provar-se, tremem que nem varas verdes e só a já habitual dose de sortilégio, à boleia de episódios da arte de bem encenar, torna possível que a menor qualidade à flor da relva se traduza numa tal chama imensa de sobranceria.

Parte I 

Mais de 48 horas depois, as consequências ainda passam por um misto de emoções e de um sentimento que muitos julgaram já não ser capazes de voltar a encontrar. Os momentos vividos antes, durante e o depois de um encontro com estas vicissitudes continuam a ser o verdadeiro motor desta maravilha que é o futebol e deste grande clube chamado Sporting Clube de Portugal. Fez-se justiça, reposicionando o dérbi como o jogo mais emocionante de uma liga tricéfala, e cumprimos o nosso papel, disputando de igual para igual e com uma cilindrada mais baixa e mais bem oleada.

Resumo de 120 minutos? Sofremos, marcámos, rematámos ao poste, vimos bolas na trave, sofremos grandes penalidades, acabámos com dez e… acabámos por perder. Foi extenuante e podia ter sido saboroso, mas a amargura da derrota também destaca o gosto de perceber verdadeiramente que há todos os motivos para ter orgulho no que está a ser feito. Sabemos que é comum dizer-se que se perdeu o jogo mas que se ganhou uma equipa, mas a conclusão que se pode retirar depois desta exibição, é que esta equipa já existia enquanto agente de uma reviravolta nos mais recentes paradigmas implantados em Alvalade e que o resultado – e principalmente a reacção ao mesmo – é apenas a prova provada de que, mesmo perante o cenário de derrota com o rival dos rivais, há momentos em que o orgulho de dizermos “sou do Sporting” é maior do que a soma de todos os pontos conquistados ou de todas as eliminatórias ultrapassadas.

Parte II

No campo, à semelhança do jogo no Dragão, o Sporting demorou a libertar-se. Mais uma vez, a equipa pareceu ter dificuldades em adaptar-se rapidamente a uma casa desconhecida e a um ambiente menos favorável. Os passes, muitas vezes denunciados e algo trémulos, demoraram a importunar, as transições ofensivas estiveram presas e o meio-campo, tão essencial na batalha, pareceu muito combativo mas pouco audaz, pelo que grande parte dos primeiros 45 minutos foram decorrendo com um Sporting tentar amarrar – ou desamarrar-se – do meio campo benfiquista. A colocação de Rúben Amorim e de Enzo Pérez, ambos apoiados por Matic, frente a um meio-campo em que, ao contrário de William, que optou por simplificar o jogo, André Martins e Adrien começaram com algumas dificuldades para dar nota artística à construcção, tornando o jogo muito dividido a meio-campo e tendo como consequência um sem número de faltas, o que, regra geral, acabou por beneficiar o adversário.

O buraco entre os três médios e a zona central da defesa demorou a fechar e as segundas bolas ganhas foram em número pouco aceitável. E ainda houve tempo para ver a barreira a saltar frente ao livre rasteiro de Cardozo. Mas, tal como no Dragão, a equipa soube ir atrás do prejuízo. Depois de uma primeira parte em que, mesmo não estando bem, a equipa não merecia sair para o intervalo com dois golos de desvantagem e a imagem de um confronto desequilibrado, os restantes 75 minutos foram mais do que suficientes para que os jogadores saíssem da Luz com uma mão cheia de sorrisos fulgurantes e não tanto de consolação.

Ao intervalo, Jardim não mexeu, numa clara mensagem de confiança e de responsabilização dos jogadores, depois dois golos sofridos em 3 minutos, no final da primeira parte. Um quarto de hora depois, a entrada de Carrillo, para voltar a deixar no ar a ideia de que, por enquanto, parece um jogador mais talhado para desequilibrar quando parte do banco – e que pormenores. Com o golo de Maurício, Jardim voltou a mudar, fazendo entrar Slimani. O argelino esteve no melhor e no pior. De início falhou isolado, no fim fez-nos sonhar e, pelo meio, foi quase comovente vê-lo a redimir-se e a prolongar a partida por mais meia hora.

E Mané? Não foi a estreia, mas foi o primeiro jogo em que foi possível vê-lo a ser posto à prova. Fintou, deixou os mais lentos e os mais rápidos para trás, ganhou espaços, assistiu, galvanizou a equipa, e ainda teve tempo para se perder num ou outro drible mais cândido. Ganhou pontos para futuras apostas e apresentou-se ao público mais desatento como mais uma pérola saída de Alvalade. Recuperando e adulterando as palavras de Ronaldo sobre um outro diamante: «Se acham que Ivan Cavaleiro é bom, esperem até ver Carlos Mané». Mas este é mesmo para valer.

É complicado perder, ainda para mais com lances mais do que duvidosos durante os 90’ e uma ponta final em que a simulação de uma falta resulta num cabeceamento involuntário de 1,90m abaixo da linha de visão. Isso e um penalti por mão de André Almeida na grande área. É caso para dizer que “o crime compensa”. Mas, olhando para trás, soube muito bem ver Jesus a desesperar perante a reviravolta leonina; ver Artur a queimar tempo em plena Luz desde o minuto 72; e ouvir os assobios encarnados como resposta à exibição da própria equipa. Como sublinhou Maurício: «É um enorme prazer trabalhar num clube como este e com estes companheiros guerreiros! Não vencemos, mas lutámos até ao fim! Obrigado por nos apoiarem!».

No pós-jogo, Bruno de Carvalho foi duro e implacável, Jardim foi crítico mas optou por não justificar a derrota com os erros de Duarte Gomes – alguém cuja taxa de bazófia continua muito acima da média e que, não feliz com o desempenho, ainda expulsou Wilson Eduardo após o final da partida. Do outro lado, Jesus esteve novamente brilhante na análise à arbitragem. Como o disse Bruno de Carvalho: “Há um ano foi limpinho agora foi muito boa arbitragem”. Não é a primeira vez que Jorge Jesus o faz e, nessa e noutras atitudes, torna a manifestar completa ignorância no que diz respeito ao conceito de “inteligência emocional”.

Quanto ao caminho leonino para os próximos tempos, já foi traçado por Slimani: «Lutar como leões, é o que podemos fazer no Sporting». E parece que, ao contrário de outras, para esta equipa não se trata de uma tarefa muito difícil de concretizar. A luta continua dentro de momentos. Próxima paragem: Guimarães.