wolf

everybody be cool, this is a robbery!

por 22 de Abril de 2013À saída do estádio0 Comentários

“Roubo de igreja”, “Roubo de catedral” ou “roubo acapella”. Não vale a pena perder mais tempo a inventar trocadilhos. Existiu. Foi “limpinho”. Na Luz. Às claras. Aliás, como era de prever. Uma verdadeira “obra de arte”. Para admirar. Um “hino ao futebol” que há largos anos se pratica em Portugal. Do início ao fim do jogo. Do primeiro ao último minuto, e nem só durante os primeiros 15, quando um dos pesos – teoricamente o mais pesado – se encontra em manifestas dificuldades para atingir qualquer tipo de equilíbrio. 

O jogo de ontem marcou uma viragem. Teve, inclusivé, direito a andor e a altar. Foi uma verdadeira festa, dirão. Uma procissão, até. Com qualquer coisa de solene. Uma tal solenidade que, como muitos entenderão, só teve uma explicação. Os 90 minutos jogados na Luz celebraram um funeral. Durante hora e meia, os ditos desportistas, fãs da sã convivência competitiva, do desafio justo e do futebol total, assistiram ao enterro da verdade desportiva e ao esgotar do último pingo de vergonha que ainda habitava na pobre esfera futebolística nacional. 



Benfica – Sporting. 21 abr, 2013

Foi obsceno ver uma equipa em recuperação – constituída por miúdos e teoricamente inferior – entrar em campo com todas as ganas, com classe, com domínio e com bom futebol, e vê-la ser travada pelas leis do julgamento em causa própria. É vergonhoso que, com 15 minutos jogados, saibamos, com toda a impotência, que um tal senhor já se encontra a caminho de um “roubo de catedral”, depois de, aos 7 minutos, já existirem duas grandes penalidades por marcar e outras tantas faltas no meio campo ofensivo por assinalar. É vergonhoso que, à medida que os minutos iam sendo jogados, a nação sportinguista se tenha apercebido de que de nada valeria o esforço, a qualidade e a ambição – que colocavam em sentido um adversário que se limitava a ver jogar, mas que não precisava de tal subserviência. 


Um adversário que, não satisfeito com o triste espectáculo, se remete à omissão, à vã glória e à incapacidade para gerir o próprio ego, cuja dimensão nunca será menor do que o tamanho de uma queda. 

Uma conclusão. É possível fazer com que a abordagem parcial e tendenciosa atravesse os 90 minutos de um jogo de futebol sem qualquer acanhamento, sem a mínima necessidade de dissimulação, de um modo banal e quase artesanal. Afinal, qual é a crise? É, simplesmente, o futebol em Portugal.

Reparo. Esta não será a primeira nem a última vez que o Sporting perderá um jogo no qual foi melhor. A isto chama-se futebol. Empata-se. Ganha-se. Perde-se. Porém, o exercício de ontem terá de marcar um virar de página, e a atitude geral terá de ser outra. Não é admissível que, perante um verdadeiro atentado ao futebol – com decisões que, para além das consequências morais e psicológicas imediatas, poderão também ser dramáticas ao nível financeiro -, a atitude quase unânime seja a de ignorar, com toda a euforia provinciana, que “se teve a sorte do jogo”.

“A sorte procura-se”. Pois bem. De acordo. Não será difícil imaginar que, nos dias anteriores ao derby, o homem do jogo tenha sido o mais procurado. Acredito até que, na antevisão da cerimónia de entrega do troféu, nem tenha sido necessário grande esforço para que fosse encontrado. João Capela estava já ali, ao virar da esquina. Alumiado. À luz de todas as evidências. Pensando que, mais tarde, com toda a tosquice caseira, teria a sorte de sair da Luz, no mínimo, um pouco mais iluminado.


Conseguiu, mas sem isso tirar qualquer brilho a uma turma que, mesmo perdendo, mostrou argumentos suficientes para terminar o jogo com outro resultado. Bravos rapazes que, na imensidão dos pormenores, provaram mais uma vez que, ainda que a arquitectura religiosa seja muito apetecível, a nossa fé é outra.


O Sporting somos nós