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Debate, mas pouco

por 22 de Março de 2013Os textos do Damas0 Comentários

Os debates decisivos têm sempre destas coisas: raramente são esclarecedores e, em grande parte do tempo, o que é realmente sério deixa de ser discutido para dar lugar a boas doses de populismo e ao bate-boca sobre o que é assessório. Vimo-lo em 2011 com Godinho Lopes, Abrantes Mendes, Bruno de Carvalho, Pedro Baltazar e Dias Ferreira. Voltámos a vê-lo ontem com os três que agora, e cada um à sua maneira, se apresentam como “Os Senhores da Mudança”. 

Se o debate poderia servir para que algumas das minhas dúvidas se dissipassem, a verdade é que, no final, a sensação foi de que fiquei com mais questões por colocar do que com assuntos esclarecidos. Da discussão, pouco há a reter que seja realmente novo, mas há pelo menos uma garantia. Todos os candidatos tranquilizaram sócios e adeptos quanto ao futuro imediato do clube e quanto à necessidade de injectar os tais 25 milhões de que se tem falado – necessários para fazer face às dificuldades prementes de tesouraria. Quanto ao resto, demasiado nebuloso para que se perceba um fim condutor em cada um deles. 


A receita a aplicar, na teoria, já é conhecida de outras matérias: confiar pouco no aumento das receitas e cortar o mais que se pode do lado da despesa, em especial através de um tecto salarial para funcionários e jogadores. Em suma, reduzir drasticamente o orçamento, a um ponto de, no mínimo, equilibrá-lo com a receita, que, em ambiente de crise, se prevê cada vez menor. 


Debate eleições Sporting 2013. Fonte: RTP Informação

Porém, quando a questão incide sobre pormenores sobre como irá ser feita a recuperação financeira, aí o discurso muda de figura. Bruno de Carvalho, Carlos Severino e José Couceiro, cada um deles, com mais ou menos taxa de bazófia, garante ter na pasta a solução indicada: um plano de reestruturação financeira meritório e revolucionário, apoiado por investidores e que irá permitir ao clube sair da situação calamitosa em que se encontra. Quanto aos nomes, proveniência, implicações e números concretos, pouco há a acrescentar. E ainda há quem tenha a lata de dizer: «Só revelo depois de vencer as eleições». Então mas, com o que se tem passado nos últimos tempos, alguém no seu perfeito juízo irá votar num candidato que encobre o programa eleitoral, agindo de forma quase chantagista para com os associados? É quase revoltante perceber que, nas eleições mais importantes da história do Sporting, o clube está entregue aos desconhecido e sujeito a devaneios próprios de quem não tem a noção no que se está a meter. 


De futebol, pouco se falou. Por um lado, é bom saber que já ninguém quer saber da cantiga das promessas de “treinadores de referência internacional” e “Jardéis”. Por outro, parece que se perdeu tempo a discutir a forma, esquecendo-se o conteúdo. Para além da formação, encarada agora – e só agora – como o El Dorado leonino, pouco há de pormenorizado. Jesualdo Ferreira é tema tabu. José Couceiro fala de Diogo Matos para as camadas jovens e apresenta o trunfo Pedro Barbosa para a ligação entre o relvado e o camarote; Bruno de Carvalho mantém Virgílio e Augusto Inácio sem esclarecer Freitas Lobo e Tomaz Morais; Carlos Severino mostra o contrato com a Cruyff Football, com a promessa de que, como contrapartida, o Sporting só terá de desembolsar cerca de 50 mil euros mensais para 4 ou 5 treinadores. Ninguém estaria à espera de um milagre mas, tendo em conta a situação a que o clube chegou, tudo isto me parece muito pouco. 

Contudo, parece claro que a decisão estará algures entre José Couceiro e Bruno de Carvalho. Couceiro, sempre mais ágil e astuto do ponto de vista desportivo, compreendendo melhor em que terrenos se irá mover; Carvalho, mais seguro do ponto de vista da gestão, e ainda com a benesse de não se deixar identificar como o “Mandatário da Banca”. Agora, se o debate serviu para que qualquer um deles esclarecesse os indecisos, perdeu-se a oportunidade. O tempo perdido entre acusações mais ou menos descabidas acerca de questões de foro pessoal foi demasiado. E reafirmo, a necessidade de uma solução rápida e duradoura para o clube impunha um debate com menos folclore e mais exigência. 

Nota final para a venda de Ricky Van Wolswinkel. O mesmo presidente que não renova com Bruma à espera do resultado das eleições é o mesmo que vende o ponta de lança titular para que o clube tenha um encaixe abaixo do que era previsto. Será que ainda é preciso gastar milhares de euros em auditorias ou está tudo dito em relação ao estado a que isto chegou?


O Sporting somos nós.