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Os rapazes da mesma cidade.

por 3 de Janeiro de 2013Os textos do Damas0 Comentários

O João e o Marco vivem na mesma cidade. Moram em bairros diferentes, mas conhecem-se há largos anos.
O Marco é bom rapaz, mas a sua maneira de ser, as suas atitudes e a sua forma de pensar são totalmente contraditórias face às do João.

O Marco gosta de dar nas vistas, gosta de se armar em esperto e de ser o centro das atenções, nem que para isso tenha de ser rude nas suas palavras. O João é um rapaz mais ponderado, simpático, com ideias e valores bem vincados. O Marco gosta de sentir que é o maior e que tem carradas de amigos. Fanfarrão por natureza, gosta de se exibir, de dizer o que fez e o que tem. Já o João, é discreto, um rapaz convicto das suas ideias, ciente da sua personalidade e bom observador.

O Marco começou a viajar há pouco tempo. Aprendeu a fazer uma das coisas boas da vida e gosta de relatar aos seus amigos as suas histórias e episódios que, por vezes, ficam aquém da verdade. Agora, anda na vanguarda da tecnologia. Tem um Iphone e um Ipad, e não é que seja um mestre na arte de manusear estes aparelhos, mas sim por querer estar sempre na moda e ser bem visto perante os amigos. Assim, adquire por ser caro e não por ser bom. A sua maneira de vestir mudou – hoje veste-se de cima a baixo com etiquetas de marca das mais famosas e mais fixes para a sua idade – e o Marco, com o passar do tempo, deixou de ter noção do que realmente o faz feliz. Agora vive das aparências e pensa que é o maior da cidade dele.

O João também gosta de viagens e tecnologia, mas não sente a necessidade de o mostrar. O João gosta mais que alguém repare nas suas novidades, gosta que lhe digam que tem bom gosto e que lhe achem piada por gostar dos pequenos prazeres da vida.

O Marco, quando confrontado com o João, fica nervoso. O seu poder de argumentação é praticamente nulo. Passa num ápice à critica fútil, à ironia e ao sarcasmo de baixo nível, sem saber bem o que está a dizer, mas a tentar defender a todo o custo a sua suposta reputação perante o seu grupo de amigos.

O João detesta chicos-espertos, graxistas e pseudo-intelectuais. O João sabe que já foi apelidado de parvo e arrogante pelo Marco e os seus capangas. O João fica possesso por saber que o Marco se gaba de histórias que não existem. O João também sabe que o Marco andou a combinar cafés com a sua ex-miúda, mas nem isso perturba o seu raciocínio nem afecta a sua personalidade, pois o João tem no seu íntimo a consciência que, como pessoa, é superior ao Marco.


Como é de esperar, o João e o Marco têm preferências clubísticas diferentes. O Marco acha que toda a gente no mundo idolatra o seu clube, acha que todos reconhecem a sua hipotética e suposta superioridade, e não coloca sequer em causa que alguns êxitos do seu clube tenham sido obtidos de forma pouca clarividente – mas isso, para o Marco, não conta nada. Gabarolas como é, faz questão de demonstrar a sua sobranceria, rebaixando o clube do João. Faz piadas de mau gosto em frente aos seus rapazes, para que estes se riam à brava das suas larachas.

O João sabe do real valor e da real dimensão do seu clube e orgulha-se disso. Sabe que tem amigos verdadeiramente fantásticos e agradece todos os dias o facto de não ter nascido do clube do Marco. O sorriso pouco aberto do João, quando confrontado com as futilidades do Marco, deixa este último pensativo, deixa-o nitidamente à toa. O Marco agora faz a festa, mas o João sabe que, mais cedo ou mais tarde, irá cumprimentar o Marco com o habitual sorriso e dizer-lhe: “Olha para ti, pobre coitado…”. O Marco continuará confuso do porquê do sorriso do João. O Marco nunca irá entender o orgulho que o João sente em ser tão diferente dele.