Diogo

O amor à camisola.

por 30 de Janeiro de 2013Os textos do Damas0 Comentários

Vou falar do Sporting antes do novo símbolo.Vou falar de amor à camisola, de identidade e de orgulho. Falarei também de carácter, garra, vontade e classe. Abordarei ainda o tema da mística, da entrega, da paixão e da raça. E de muitas coisas mais…

Cresci com histórias que me deixavam maravilhado, com jogadores que nunca vi jogar, mas que imaginava a fazer defesas, remates e fintas espectaculares. Ouvia os mais velhos dizerem que Travassos, Vasques, Peyroteo, Jesus Correia e Albano, seguiam à letra a mensagem de José de Alvalade, que Vitor Damas, quando assinou no seu regresso ao Sporting, nem leu o contrato apresentado pelo então presidente João Rocha. Assinou e ponto. Lembro-me do meu avô me falar também de Carlos Gomes e de muitos outros. Lembro-me dos meus tios me falarem da elegância de Jordão, da agressividade de Venâncio e da classe de Manuel Fernandes, mas eu também me lembro de outros que continuaram a construir a nossa história. Cresci com um Sporting que não ganhava, mas que entusiasmava. Cresci com um Sporting que tinha como sina saber sofrer, mas cresci sobretudo com um Sporting com mística e identidade.

Comecei a ir à Alvalade muito novo, com o meu pai. Antes dos jogos, íamos até à nave de Alvalade ver as monstruosas equipas de andebol ou jogos de futebol de salão (na altura era assim) e, depois seguíamos para o estádio. Subia a longa escadaria do velhinho Alvalade e lá estava eu, pronto para ver e ouvir a nossa "Maria José Valério" a cantar a marcha. O jogo até podia não estar a nosso favor, mas o ambiente era de apoio, de fé e de esperança que o nosso Sporting acabaria sempre por dar a volta.

O Sporting era um clube mágico, o estádio era de uma imponência estonteante e os jogadores jogavam, como se dizia na altura, à Sporting. Sentia que devia defender os jogadores até a morte. O orgulho era imenso e nem os 18 anos de jejum me afastavam desse pensamento. O Sporting Clube de Portugal com quem cresci, fazia-me sentir especial e diferente por pertencer a esta família.

Havia sempre motivos e razões para acreditar que o Sporting podia ganhar a qualquer adversário. O meu Sporting tinha a mística e jogadores com amor à camisola, não é como nos dias de hoje. Marco Aurélio e Valckx mostravam-me a segurança. Oceano e Vidigal eram limitados, mas transmitiam a paixão. Duscher foi um exemplo de disciplina. Naybet e Phill Babb eram os "bad boys", homem viris, mas com carácter de leão. Balakov era a magia e Iordanov era o exemplo do que era o sangue verde e branco. Acosta fez-me chorar com os seus golos e Jardel fez de mim um homem feliz. Pedro Barbosa, o falso lento, era o capitão que beijava o símbolo. Beto e Sá Pinto mostravam a identidade do clube. A velocidade de Amunike, os cruzamentos de De Franceschi e os livres de André Cruz faziam de nós um clube temível em qualquer parte. A entrega de Rui Jorge e a classe de Luís Figo faziam do Sporting um clube tão grande como os maiores da Europa.


O Sporting teve homens de carácter e jogadores com amor à camisola. Os tempos eram outros e as mentalidades também.

O clube mudou o símbolo e mudou a identidade. Perdeu-se a mística e muitos outros valores.

Na última década, o Velhinho Alvalade dá lugar a um estádio com fosso, o Pavilhão onde se assistia ao ecletismo do clube desaparece e o clube de futebol perde os seus ídolos - Montinho, Li€dson e Ismagaylov. O Sporting dispensou Varela, vendeu os miúdos da casa Miguel Veloso e Carriço, e contratou uma frota de estrangeiros que nunca terão a capacidade de perceber a honra que é vestir o mais lindo pedaço de tecido verde e branco à face da terra.

O meu - e nosso - Sporting e a nossa identidade está presa por um homem de 24 anos. Dotado de capacidades formidáveis, Rui Patrício é, neste momento, o estandarte do Sportinguismo. É o único jogador com a mística do antigamente e com a paixão que nos faz continuar agarrados com toda a força ao nosso Sporting Clube de Portugal.

Gostava de poder afirmar convictamente que Rui Patrício joga por amor à camisola, mas, nos dias de hoje, isso é um caso raro e, na maior parte deles, patético.

Ass: Sporting Sempre.