Damas-Post

Vitor Damas

por 2 de Outubro de 2012Os textos do Damas0 Comentários

O que eu desconhecia, até à altura, era a longa história de amor entre o Damas e o Sporting. Entre o Damas e os sportinguistas. Não sabia que ele se tinha “feito” no Sporting, que tinha ido para Alvalade com 14 anos, que fora o inquilino indiscutível da nossa baliza, anos a fio. O Damas.


Tudo isto por um guarda-redes? Pensava eu: um guarda-redes pode ser bom, mas quem nós idolatramos são os avançados. Manuel Fernandes/ Jordão/ Oliveira era o “tridente” de ídolos da geração mais velha; Di Francesci/Mbo Mpenza/Beto Acosta são outros. João Pinto/Pedro Barbosa/Mário Jardel eram os meus. Agora, um guarda-redes? Porquê este fascínio pelo Damas?

O que não sabia, aprendi. Aprendi quem era “o Damas”, o que ele significava e porque é que os sportinguista se deviam pôr em sentido cada vez que o nome dele era pronunciado. Podia não haver uma grande equipa do Sporting. Mas havia grandes sportinguistas na equipa. Como o Manuel Fernandes. Ou o Damas.
O Damas acabou a carreira, mas nunca nos deixou. Fez parte da grande dinastia de guarda-redes do Sporting. Damas, como diriam os ingleses, sangrava verde e branco. Não se podia conceber o Sporting sem o Damas. Ou vice-versa.

O Damas morreu pouco antes de fazer 56 anos. Todos o homenagearam, os sportinguistas, os não-sportinguistas, os antigos colegas e os antigos adversários. Eusébio disse: “Nunca esquecerei a dignidade e o respeito mútuo. Damas era um senhor, um grande amigo, um grande homem e desportista de eleição. Será lembrado, eternamente, como um grande símbolo do futebol português.” 
Damas era apelidado de “Eusébio do Sporting” ou “Eusébio das balizas”. Não me soa bem, mas reconheço que a descrição traz uma conotação extremamente forte. 

Augusto Inácio disse, uma vez: “Ainda era miúdo, tinha 12/13 anos e vi o Damas fazer uma espetacular defesa com um golpe de rins a remate de Eusébio. Ao longo da minha carreira, nunca vi nada igual. Foi uma defesa impossível, que colocou o estádio em delírio. Como grande senhor, Eusébio cumprimentou o Damas logo a seguir.”
O antigo defesa central Venâncio disse: “Foi um monstro na baliza. Toda gente o conhecia e admirava. Tive o prazer de jogar com ele muitos anos e, ao início, ficava assustado quando o via sair da baliza em direcção a nós, defesas, para nos ralhar, a trincar a língua de raiva. Mas depois habituei-me.”

Não só do outro lado da segunda circular, mas também no norte do país, o discurso era semelhante. Fernando Gomes, do FC Porto, teceu rasgados elogios a Damas. “Um dos maiores guarda-redes portugueses de todos os tempos!”

Qual é a moral desta história? Há sessenta ou setenta anos, o guarda-redes do Celtic John Thompson chocou com o avançado do Rangers Sam English e sofreu tais lesões que morreu. Diz-se que, enquanto o levavam para fora do campo, estando prestes a perder a consciência, lançou um último olhar para a sua baliza, como se se perguntasse quem a defenderia a partir dali. Desde então que os adeptos do Celtic cantam em sua homenagem uma das mais belas canções jamais criadas no mundo do futebol, aquela em que se cantam os versos: “So come all you Glasgow Celtic/Stand up and play the game/For between your posts there stands a ghost/ Johnny Thompson is his name”. 

Agrada-me pensar que sempre que uma equipa do Sporting entrar em campo, seja onde for, o Damas estará presente entre os nossos postes, não para os assombrar, mas para proteger quem quer que ocupe um lugar que, de certa maneira, ainda é e sempre será seu de direito. Rui Patrício terá Vítor Damas a olhar por ele. Rui Patrício terá a honra de defender a baliza que será, eternamente, de Vítor Damas. 

http://www.youtube.com/watch?v=gGHNnqZmdwU&feature=related