O sonho comanda a vida.

por 27 de Setembro de 2012Os textos do Damas0 Comentários

A memória

Corria o ano de 2000. Estava uma bela manhã de Primavera, de sol bonito e  céu límpido. Dez horas da manhã e um nervosismo miudinho tomava conta do corpo. Estava prestes a viajar com o meu Pai e uns amigos até Paranhos para ver o Sporting, jogo que tinha a pequena particularidade de ser o do título. O primeiro que poderia assistir desde o meu aparecimento no mundo. Cassete com as músicas do Sporting a tocar e a cabeça a fervilhar com vários cenários possíveis. Uma grande defesa de Schmeichel, uma jogada magistral do Pedro Barbosa, um corte de classe do André Cruz, um centro perfeito de Di Franscheci para um golo ainda mais perfeito do Acosta.  Imaginava de forma ideal como seria mais logo com os meus heróis.
Chegámos, vamos entrar. A ansiedade apodera-se de todos. Eu, o mais novo, com a cara pintada de verde e branco, entoava os cânticos de apoio à minha equipa. Começa a bola a rolar e o meu mundo pára. Num campo que mais parecia um pelado, o Sporting passou quarenta e cinco minutos com muito nervosismo e ansiedade. Começa a segunda parte. Dois minutos volvidos e…golo do Sporting! Um Tomahawk de André Cruz. Lembro-me como se fosse hoje. Faltavam 25 minutos para acabar e o Sporting faz o segundo por Ayew. O título já não fugia! Começam os adeptos com o cântico “Campeões, Campeões”. A festa começa a ganhar contornos e foguetes começam a rebentar depois do 0-3, golo de Duscher. Ninguém estava indiferente a tamanha festa! O país começava a pintar-se de verde e branco, passados dezoito anos.
 
Dois anos depois, em finais de Abril, jogávamos um mata-mata com o Setúbal. Não ganhámos. Nessa noite, nem dormi como deve ser…No dia seguinte, o titulo era possível. Difícil, mas não impossível. O Boavista de Pacheco ia jogar a Carnide. Para o Sporting ser campeão, o Boavista tinha de perder.  Nessa altura, o Benfica vencer o Boavista -mesmo jogando em casa – não era tarefa fácil.  O Boavista marca primeiro,  mas sem ninguém esperar, o Benfica responde por duas vezes e, de repente, sem o prever, aí estou eu, de novo, a festejar um título. Jardel e João Pinto, Quaresma e Viana  e já aparecia um menino de 17 anos a jogar com os mais velhos. O país estava novamente – e literalmente – pintado de verde e banco.

A realidade

A equipa acabou em quarto lugar na época passada. O passado e o presente não foram tão verdes como eu previa. O pior é que, depois disso, o máximo que conseguimos foram segundos lugares. Treinadores e direcções rejubilaram com esses resultados, o que, a pouco e pouco, fez com que o Sporting fosse ficando mais pequeno, mais frágil e menos astuto. Longa está a tornar-se a travessia do deserto e há quem nos desrespeite e não nos considere um grande. Um outro Sporting, que só partilha mesmo parte do nome connosco, uma vez que não têm títulos e têm menos de um terço dos nossos associados, intitula-se como nosso verdadeiro rival. Porto e Benfica alegam superioridade moral sobre nós. Não a têm… O que é certo é que,  há já algum tempo, ficamos a ver outros lutar por conquistas…do lado de fora.
 
No entanto, o clube mudou. A mudança não foi pacífica, mas, pelo menos desportivamente, o clube está diferente. Faz-me lembrar o Sporting que me fez gostar de futebol. Começou mal este campeonato, mas vai a tempo de mudar. Apesar das dificuldades, a nossa melhoria a nível de jogadores é evidente. Temos vencido adversidades terríveis, de forma dramática. Ninguém dá nada por esta equipa, ainda a vêem como outsider; bajulam-se os plantéis de Porto e Benfica, embora com o fecho do mercado e respectivas saídas de jogadores, estes tenham saído notoriamente enfraquecidos. Senti este Sporting de segunda feira com um aspecto comum ao Sporting de 2000: A união. Não se exigiram títulos ao Sporting num ano em que tudo mudou. Mas, agora, a História começa a ser outra. Os sonhos comandam a vida e a esperança é verde. Esse desejo, essa esperança ninguém me pode tirar.

O sonho

Acordo já depois da hora de almoço, num dia bem iluminado de Maio. A noite foi longa e dói-me a cabeça. Bebi demais… Levanto-me e visto-me. Hoje é um dia especial. Mais logo, o meu Sporting também tem hipóteses de chegar ao título, apesar de partir detrás de um rival – não interessa qual – por dois pontos. A festa do rival está preparada. O Sporting não tem hipóteses. Joga com o Guimarães em casa e o adversário dos rivais é muito mais acessível. Nunca o rival perderá o jogo que lhe dará o título. No entanto, há esperança em mim. Seria lindo, neste dia, o meu Sporting dar-me a alegria de ser campeão dez -repito, dez- anos depois. As recordações do grande Sporting da minha infância/adolescência vão comigo. Hoje é dia para recordar todo o meu percurso até aqui e o meu grande amor é disso uma parte indissociável. 

Como algo à pressa e aí vou eu direito a Alvalade.
Sentado na bancada, passaram quarenta e cinco minutos e ao intervalo o Sporting perde por 1-0. Já o rival ganha. O título é cada vez mais uma miragem. Esqueço o futebol. Penso para mim que para o ano há mais…
Estou na bancada. Liberto um grande grito. É golo do Sporting! No outro jogo, o rival também está empatado. Tu queres ver que?… Começo a chegar à pele dos dedos, porque as unhas já não existem. Já não tenho posição para estar sentado. Agarro-me ao cachecol e, mesmo não sendo religioso, peço a todos os deuses que nos ajudem. Faltam cinco minutos para terminarem os jogos e estes resultados não servem ao Sporting. No entanto, o rival sofre outro golo mesmo em cima do minuto 90. O mundo pára de girar, mas os corações Sportinguistas batem cada vez mais forte e o tempo voa. Último minuto de compensação. Rinaudo recupera a bola e parte desenfreadamente para o ataque. Toda a equipa sobe; só fica Patrício. Bola em Capel que galga meio-campo, tabela com Izmailov e entra na área, Wolfswinkel está solto, tenta colocar-lhe a bola e… É VARRIDO! Penalty! É penalty para o Sporting! O estádio exulta! Wolfswinkel pega na bola e coloca na marca. Sá Pinto grita como se fossem necessárias instruções para bater um penalty. 
O meu cachecol já me tapa por completo o rosto. Não quero ver! O árbitro apita. O holandês corre para a bola. Uma eternidade para lá chegar… REMATA…
   
Falta um final a esta história. Por mim, voltávamos a tingir Portugal de Verde e 
Branco… E vocês, o que acham?