A urgência de sempre

por 30 de Agosto de 2012Hoje é dia de Sporting0 Comentários

«Quando despertou para a urgência de inverter o jogo, era demasiado tarde. (…) Os leões faziam tudo para corrigir a entrada em falso. Com a velocidade e a urgência que nunca tiveram. Que não tinham tido, por exemplo, na primeira parte. Entraram no jogo aliás a perder (...) Depois disso continuaram como se não fosse nada com eles.»


Diz-se que a pressa é inimiga da perfeição. O provérbio até pode ter algum fundo de verdade, mas, na maioria das vezes, não se pode aplicá-lo ao futebol. Ou somos o Barcelona, e com cinquenta passes seguidos – mesmo lentamente – metemos a bola na baliza adversária, ou então é preciso jogar com rapidez e muito empenho, porque os desequilíbrios não acontecem por acaso.

O excerto acima transcrito é parte de uma crónica datada de 20 de maio deste ano, o dia em que o Sporting perdeu a Taça de Portugal frente à Académica. De lá para cá, no relvado, pouco mudou. O que se pensava ser apenas um acidente de percurso da liderança Sá Pinto – após algumas boas prestações na Liga Europa e de uma série considerável de vitórias em Alvalade – tornou-se real. Mais do que a qualidade do adversário, mais do que as oportunidades criadas ou a qualidade do plantel, a equipa não mostra pressa em vencer. A cada jogo, são 45 minutos de avanço dados ao adversário. Pior, a cada ano que passa, à medida que as grandes conquistas se tornam cada vez mais longínquas, a falta de urgência transforma a equipa num conjunto de jogadores que deixa de saber vencer e que se acostuma com a cultura do “melhor possível”.

E, aqui está um dos pontos mais contraditórios. Sá Pinto, um homem forte do ponto de vista motivacional, um homem das massas, alguém a quem a tal raça, vontade de vencer e os valores Sporting assentavam que nem uma luva, parece, hoje em dia, alguém perdido entre os episódios emocionais do passado e o cinzentismo – quem sabe, a que é obrigado – do presente. O Sá das conferências não é o do campo e não é, certamente, o do balneário ou o da “vida real”. E, se ao substituir Domingos Paciência, ainda teria a atenuante de uma entrada a meio, agora, numa época por ele estruturada e pela qual dá a cara desde o princípio, os adeptos pedem que, no mínimo, Sá Pinto tenha apenas uma cara. A mesma com que terá de olhar para os adeptos e perceber que, ainda que curto, o início de época, do ponto de vista mediático, já se tornou, se não desastroso, pelo menos incómodo, e que é preciso mudar.

Todos já deram a opinião. O meio-campo continua a ser um equívoco e, à imagem do ano passado, a equipa sente muitas dificuldades quando não tem um número 6 que jogue de cabeça levantada e que saiba construir – a ausência forçada de Rinaudo contribui para as incertezas e, com certeza, para a perda de qualidade – a que se acrescenta agora a dúvida acerca da posição 10 e da necessidade, ou não, de um companheiro ou até mesmo de um substituto para Van Wolfswinkel. Posto isto, volto ao tema da rapidez e da urgência, no campo e fora dele.

Tanto Johnny Molby, treinador do Horsens, como Martin Spelmann, autor do golo dinamarquês na 1ª mão, estão de acordo: os primeiros cinco, dez, quinze minutos vão ser muito importantes porque, a partir daí, a equipa vai acertar o passo e entrar no ritmo que o Sporting souber impor. Ou seja, se a cadência global for lenta, à semelhança do que se passou na segunda-feira, não haverá velocidade de Capel ou Carrilo que valha, e as dificuldades vão ser muitas.

Frente ao Rio Ave, a equipa teve 56 ataques, 23 remates e 8 cantos. Hoje, quando o jogo terminar, ninguém vai querer ouvir falar em mais estatísticas. Ao quarto jogo oficial, a equipa tem, neste momento, a obrigação moral de ganhar de forma clara, sem tropeções para resolver depois do intervalo, sem mácula. É obrigatório que a vitória seja, a todos os níveis, arrebatadora. Caso contrário, mesmo com uma passagem à fase de grupos da Liga Europa, ninguém vai sair mais forte, e com a agravante de, tal como agora, os adeptos já começarem a recear uma ida aos Barreiros.

Ganhar é urgente e imperativo, mas é necessário que Sá Pinto se aperceba que nem todas as vitórias significam uma verdadeira vitória, e que não basta vencer, é preciso convencer. Mais, a culpa própria é um facto que deixa um amargo de boca e a convicção de que o problema pode estar mesmo na liderança. Por isso, fazendo nossas as palavras de Rui Patrício: “É ir para cima deles”.